Pescaria
CRÔNICAS 00013
Rib.Preto, 01/08/2009
Conforme escrevi na crônica anterior, sobre meu tio Leopoldo, a exemplo deste, seus irmãos também eram pescadores consuetudinários, e assim sendo, um belo dia, eu, com mais ou menos doze anos, em companhia de meu primo Fidelis, tio Braz e tio Ítalo, que na ocasião tinha um Chevrolet 1926, “cabeça de cavalo”, saímos para uma pescaria, demandando a estrada de Monte Alto, que se iniciava onde atualmente se situa o bairro Talavasso, e logo após a entrada da fazenda do Celso e dona Julinha Paraguaçu, começava a subida da serra, e naquele momento, em nossa frente, tinha uma jardineira, que seguia para a cidade vizinha, e que lenta e inexorável seguia seu caminho, apesar da buzina e dos impropérios do tio Ítalo, não dando espaço para a ultrapassagem, e em dado momento, o tio pegou a manivela, que ficava aos seus pés , com a mão para fora do veiculo, brandia aquele artefato, e eu imaginava o Brucutu, cavalgando o Dino, brandindo sua clava, correndo para salvar sua heroína, Ula, (para quem não sabe, o Brucutu era um personagem da Idade da Pedra, herói de histórias de quadrinhos, que naquele tempo se chamava “gibi”, e o Dino era seu dinossauro (brontossauro ou diplodoco ?) amestrado), ameaçando o motorista do ônibus, que não dava caminho, por várias razões: - a estrada estreita não permitia; a poeira era tanta que formava uma cortina impenetrável; o ônibus não tinha espelho retrovisor (que é isso?); o cabeça de cavalo não tinha força para a ultrapassagem; para não esquentar muito o motor da jardineira e não prejudicar o “desempenho”, tinha uma válvula que abria o escapamento, antes do silencioso, calcule-se o barulho; o cambio dos caminhões (ônibus) naquele tempo eram “seco” isto é, os dentes das engrenagens eram retos e não helicoidais, portanto para a mudança de marcha, alem de usar a embreagem, que se chamava desembreio, tinha que se dar um tempo, tirando o pé do acelerador, caindo a rotação do motor, diminuindo assim os giros das engrenagens, e só assim a mudança era feita, e o esforço da subida fazia o cambio roncar, portanto, mais barulho; finalmente, quase no fim da subida, depois de muito xingamento e ameaças, a estrada era mais larga, permitindo a passagem, e a intenção do tio era parar e brigar com o motorista, porem como corria o risco de o carro não pegar, pelo esforço, inclusive já estava fervendo, e com a possível tendência de ir para traz, em razão do aclive, resolveu ir embora, pois já estávamos atrasados para a finalidade a que nos havíamos proposto.
Finalmente, chegamos ao local da pescaria, não recordo o nome do rio, e cada qual foi procurar um “poço” que melhor atendesse suas pretensões, e eu procurei um que ficasse à sombra de alguma árvore, já que pretendia dormir, e na medida do possível, defender- me dos piuns, muriçocas, motucas, borrachudos, enfim, toda a enciclopédia insetívora, e chegar no barranco do rio não foi fácil, pois precisei atravessar moitas de arranha-gato, de urtiga, e outros que tais, e após uma bela soneca, e sem pegar nenhum peixe, pois não havia levado a vara de pescar, mesmo porque eu não tinha nenhuma, finalmente chegou a hora de comer, lá pelas 14 horas, e eu já antevia o belo farnel que meus tios teriam levado, pois toda a organização ficara a cargo deles, e quando abriram o embornal, eu já com o estomago nas costas e água na boca, verifiquei que a matula seria apenas cebolas cruas, e ante a minha expressão, que não deveria ser muito boa, os tios explicaram que na beira do rio era a melhor alimentação, pois esses bulbos, alem de terem um grande teor alimentício, ainda tinham a incrível condição de afastarem os insetos em um raio de muitos metros, ante a exudação de seus odores pelos poros, e quanto mais ardidas, melhores os efeitos, e para beber, levaram apenas cachaça, e como não tinha mais nada, precisei me submeter ao cardápio. Lá pelas quatro horas da tarde, finalmente, graças as minhas mais pungentes orações, pois naquela tarde me tornara um cristão convicto, retornamos para casa, e essa excursão foi sem duvida um marco em minha vida, pois jamais retornei á beira de qualquer rio, com essa intenção, apesar dos freqüentes convites, que eu recusava, agradecendo, especialmente se fosse do tio Ítalo e do tio Braz, alem do tio Leopoldo, que tinha os mesmos hábitos dos irmãos.
.....si non é vero, é bene trovatto.
Glauco Costantini









