Tiro de Guerra (TG)
CRÔNICAS 00021 – TIRO DE GUERRA
Rib.Preto, 05.10.09
Que foto é esta? Será que é da Guerra Franco-Prussiana, ou da invasão da Europa pelas Forças Expedicionárias Brasileiras, a Gloriosa FEB? Nada disso, são componentes do garboso Tiro de Guerra 49, de Taquaritinga, em “operações” no Estádio Municipal. Na foto, eu, o Mineo Rossi, meu amigo e contemporâneo de escola, e agachado não me recordo o nome, mas também nosso amigo.
Em 1951, de acordo com que determinava a Lei, fui fazer o Tiro de Guerra, por um período de um ano, e como durante a quarta série ginasial, que corresponde hoje à oitava série, fiz um curso chamado de Curso Pré-Militar, eu tinha um bom conhecimento sobre as artes militares, já que nesse curso, alem das matérias de ordem social, ainda havia a parte como ordem unida, manejo de fuzil, enfim, preceitos e princípios básicos da arte bélica., e era ministrado por um sargento do Exercito. A turma de 1951 era composta de 64 “atiradores”, e eu era o numero 38, e como durante a ultima Grande Guerra, que terminou em 1945, as forças Armadas Brasileiras foram treinadas pelos americanos, a formação dos Pelotões seguia o figurino destes, de 3 Grupos de Combate, estes comandados por um terceiro Sargento, um Cabo e nove fuzileiros, e como eu já tinha um certo grau de conhecimento, alem de altura, fui designado para comandar um G.C. Durante um ano, três vezes por semana, tínhamos instruções, que começavam as seis horas da matina, o que me estressava muito, pois eu estava acostumado a ir para a cama muito tarde, e imaginem no inverno, que em Taquaritinga naquela época era bem frio, sair sem café, já que eu não queria incomodar ninguém em casa a tal hora.
Como pode verificar-se pela foto, a farda era bem simples, de brim (fraquinho) verde oliva, coturno preto, e, como não havia capacetes, usávamos na cabeça um pequeno casquete, também chamado de bibi, feito do mesmo material da farda, e, de uso obrigatório durante os exercícios, e fora destes, nós os dobrávamos e prendíamos sob a ombreira direita; fazia parte também do fardamento uma bandola, que era um “arreio” de couro, onde iam as cartucheiras e no cinto, um local para a colocação da baioneta, e, que era usado em ocasiões especiais, como desfiles, pelo porta bandeira e pela guarda desta; como o quartel deveria ter uma guarda nas 24 horas do dia, os componentes desta, obrigatoriamente deveriam usar também a bandola, pois sem duvida dava um “certo ar de militarmente correto”. Quanto ao armamento, usávamos um fuzil “moderníssimo”, acho que havia sido utilizado na Guerra do Paraguai, de fabricação alemã, Mauzer, ano de fabricação 1908, e durante os exercícios de tiro ao alvo, apenas meia dúzia conseguiam esse intento, e nos desfiles os danados cansavam muito, pois pesavam mais ou menos 7,500 kgs.; para a época essas armas até que tinham uma boa tecnologia, pois o “ferrolho”, que era a peça principal, onde ficava o percussor, saia do berço apenas deslocando-se uma trava, e assim o fuzil não funcionava; este ferrolho era todo desmontável, sem nenhum parafuso, apenas com encaixes muito precisos, e havia frequentemente disputas para ver quem desmontava e montava a peça no menor tempo, e sem falsa modéstia, eu quase sempre o fazia mais rapidamente.
O sargento que comandava o Tiro de Guerra, era um pernambucano, acho que seu nome era Itamar, muito falastrão, e sempre nas suas alocuções, como exemplo das virtudes da vida militar, citava sua participação na 2ª. Grande Guerra, que havia terminado em 1945, contando histórias de combates, enfim, como se fora um verdadeiro herói, entretanto não dava provas que assim o fizera, e ante a nossa constante cobrança, finalmente um dia apareceu com umas fotos, de uma guarnição de um canhão anti-tanque, aparentemente dessa época, e seus componentes estavam todos de mascaras contra gazes, e ele tentou nos convencer que um dos elementos era ele, naturalmente sem muito sucesso.
Nessa época eu havia começado a namorar a Vilma, inclusive minha primeira e única, e como já foi dito, nossos encontros eram muito limitados, apenas mais liberados nos fins de semana, e não sei como, o sargento descobriu, e como eu havia tido um pequeno atrito com ele, não me recordo bem porque, e como a guarda do quartel era comandada por um 3º sargento, o danado sempre me escalava para a chefia da guarda nos fins de semana, e eu ficava realmente bravo, pois estava louco para dar uma namoradinha, e não podia abandonar o posto, entretanto, como a sede do T.G. era em frente da casa do Abdala Mansur e do Jose Libanori, sempre eu dava um jeitinho e subia até a praça 9 de Julho, nos domingos à tarde, onde me encontrava com a Vilma, por cerca de 15 minutos, para o sargento não perceber minha saída, e esse tempo exíguo era muito bom.Embora a obrigatoriedade de se fazer esse “curso” as vezes provocasse um certo desconforto, entendo que foi muito útil, pois alem de se adquirir uma certa disciplina, ainda servia para um amadurecimento para os jovens, ajudando a enfrentar os compromissos de uma vida, que àquela altura, era uma incógnita.
..................si non é vero é bene trovatto.
Glauco Costantini









