O Portão
CRÔNICAS 0003 - O PORTÃO
Em R.P. 07/06/09
Talvez, alguém, parodiando Cícero, em Catilinárias, diga “Ó Glauco, quoque quandum abutere patientia nostra”, e eu, voz direi, não abusarei jamais de vossa paciência, pois, quem não está satisfeito com minha crônicas, pare de ler, pois, por enquanto não estou cobrando, mas, proximamente, quando eu estiver inscrito nos anais literários deste paiz, a coisa será diferente.
Além das lembranças, tenho na memória, também sons, como o ranger do portão de ferro da casa do Nonno, que gemia sobre seus gonzos (ainda bem que nunca lembraram do colocar um pouco de óleo) som este que deverá perdurar até hoje, e mais o ruído do circulo de ferro batido, que ornava esse portão, e talvez por imperícia do serralheiro, girava sobre si, emitindo também um som, diferente do primeiro, e, tendo como característica principal, lateralmente, um jasmineiro, que lançava seus ramos sobre uma portada, e cujas flores tinham o mais delicioso dos aromas, a ponto de até hoje alguém sentir seu olor.
O interessante desse portão, além de suas características acústicas, é que, ao contrário dos portões bem comportados, estava (está até hoje) colocado na quina da esquina (entenderam?), dando acesso a um pátio, onde estavam colocados dois bancos, com pés de ferro fundido, e estrado de madeira, um em cada extremidade dessa área, e após uma escada de dois ou três lances, havia um pórtico, com uma entrada para o salão, e outra, lateral, para a sala visitas, e sobre esse portal, um frontão, com volutas no melhor estilo greco-romano.
Essa entrada, representava muito bem o personagem que construiu essa casa, que, só no salão de entrada tinha seis portas, e, por uma delas, adentrava-se um corredor, ao longo do qual havia quatro ou cinco dormitórios, e, lateralmente, a porta maior, que era a entrada dos domínios da Nonna, e, quem teve oportunidade de ver fotografias da época do Nonno, verá um D.Pedro II, sem barbas, talvez com maior imponência, de pé, ao lado da Nonna, sentada, e lateralmente, as filhas, todas com anquinhas, e, do outro lado, os filhos, todos de paletó e gravata, com colarinho alto, e na extremidade, o mais velho, Luigi, com farda completa de “ufficialli del exercito reale italliano”, pois esta foto foi tirada logo após o termino da 1ª. Grande Guerra, tendo o tio participado da mesma, como oficial engenheiro.
Outra fotografia, que representa bem o personagem acima descrito, e que existe até hoje, pois eu há vi bem recentemente, tem como cenário o final de uma verdadeira caçada vitoriana, tendo como figura central, o Nonno,com sua espingarda de caça, dobrada sobre o braço, e lateralmente um grande numero de “contadini”, segurando cachorros (perdigueiros?), ou transportando outras espingardas e demais apetrechos próprios para a caçada às perdizes, tendo como fundo as montanhas de Fagnano Castelo, na Calábria.
Essas férias, passadas na Itália, com toda família, dez ou onze filhos, demoravam vários anos, inclusive minha mãe, Genoveva, embora nascida em Taquaritinga, em 1º de Janeiro de 1901, cursou a escola primária
O Nonno tinha um temperamento irascível, próprio dos calabreses, incutindo respeito e receio nas pessoas, talvez até, o seu temperamento levantino, tenha sido exacerbado pela vida intensa e dificil que teve, pois aos 14 anos, sozinho, emigrou para a Argentina, tendo posteriormente vindo definitivamente para o Brasil, entretanto, eu pessoalmente, jamais tive motivo para aborrecer-me, por conta de suas atitudes, e, aliáz, tenho do mesmo as melhores lembranças.......
.........se non é vero, é bene trovatto.
Dedico esta crônica ao meu segundo neto, Marquinho, que, talvez, por ter vivido mais tempo distante de nós, em Curitiba, desconheça completamente os fatos acima, e assim, poderá ter uma idéia de seus ancestrais, pois com certeza não tem a menor noção sobre os personagens acima, e muito menos onde fica Taquaritinga, ou Fagnano Castelo.
Glauco Costantini









