Nonno
CRÔNICAS 0004- Nonno
Em R.P. 14/06/2009
Relembrando a casa do Nonno, acho que o que originou o tal de portão “guinchador,” foi pelo uso do tal como parque de diversões, por parte de nós, crianças, pois, em virtude do mesmo ter um tamanho enorme, encarrapitávamos sobre ele, e nos embalávamos para lá e para cá, e naturalmente em razão do seu peso, acrescido do nosso, provocava um atrito e um desgaste excessivo sobre seus gonzos, e portanto essa era a maneira do mesmo “reclamar”.
Conforme foi dito anteriormente, no salão da casa, enorme, havia uma mesa de jantar, com não sei quantos lugares, que na minha lembrança, de criança, parecia-me poder acomodar umas vinte pessoas, e especialmente, no Natal e no Ano Novo, quando juntava toda a família, para o almoço ajantarado.A cena, com todos os familiares adultos sentados à mesa, comendo, falando e gesticulando, todos ao mesmo tempo, com as crianças correndo e gritando, ao redor e sob a mesa, e os velhos reclamando do barulho, traz à minha mente uma piada, aliáz muito” pouco” conhecida, a do “seguuuuura o nono”, mas juro que não existe nenhuma conotação entre os dois assuntos, pois francamente, jamais ouvi qualquer manifestação bombástica por parte do Nonno. Nesses dias, todas as mulheres da família, sob a batuta da Nonna, preparavam as refeições, inclusive o macarrão era feito em casa, aliaz, acho que a única pessoa que fazia o famoso “fuzzilli”era a Nonna, pois jamais ouvi falar que alguém o fizesse, inclusive, minha mãe, que era ótima cozinheira também não sabia. O”fuzzilli” era feito com massa normal de macarrão, e após a massa pronta, estendida na mesa da cozinha, era cortada em pedaços em tamanhos já determinados, e então era enrolado, tendo como pivô um pedaço de arame, de cerca de 30/40 centímetros, tomando assim a forma de espaguete, porém de diâmetro maior, e com as paredes mais espessas, sendo servido com molho de tomate e uma grande cobertura de queijo, parmesão, pecorino, ricota seca, etc., e uma boa dose de ervas aromáticas.
Mas o assunto hoje não é culinária, e sim, tendo como figura central a acima citada mesa, que todas as noites era palco de um grande embate, após o jantar. Normalmente, com a presença dos genros, Paolo (meu pai), o tio Luiz Mantese, o tio Biaggio (Braz), o tio Leopoldo, e como capo, o Nonno, tiravam a fruteira de alabastro rosa, translúcido, a toalha, e, iniciavam o jogo de cartas, denominado de “scoppa”, que acho ser meio aparentado com o “trucco”, porém o primeiro deverá ser de origem calabreza, pois era jogado cheio de rosnados, nhunnhun, olhares enviesados, típicos da malicia e esperteza dos montanheses, e o trucco, jogado aos berros, gritos e xingamentos parece-me ser de origem napolitana, pela sua truculência; cite-se como esclarecimento que na casa do Nonno jamais se jogou trucco.
Para quem não sabe, o jogo de scoppa era jogado com um baralho normal, porem, apenas com as cartas acima de sete, até o dez, e mais as figuras, num total de 28, se não me engano, tendo como carta principal o sete de ouros, “sette belo”, que na contagem final por si só, valia um ponto a mais; jogava-se entre quatro pessoas, duas duplas, recebendo cada uma três cartas, e quatro eram distribuídas na mesa, e quando um dos participantes conseguia somar as cartas necessárias, pegando todas da mesa, “limpava” a mesa, talvez daí venha o nome de scoppa, (escova).
O problema inicial era escolher as duplas, pois ninguém queria ser “premiado” como parceiro do Nonno, que jogava na base do “mangia questa minestra ou salta questa finestra”, que em português claro quer dizer, ou dá ou desce. Enfim, iniciado o jogo, havia sempre um esforço conjunto para que o Nonno pudesse ganhar sempre, pois, se isso não ocorresse, a noite terminava com “tutti fuori casa” e mais um baralho rasgado.
............... si non é vero, é benne trovatto.
Glauco Costantini









