Cine São Pedro
CRÔNICAS-0007
R.P. 02/07/2009

Segundo os geriatras, antropólogos e arqueólogos, a tendência natural das pessoas, a medida que a idade avança, é que, as memórias mais antigas aflorem com facilidade, em detrimento das atuais, que são esquecidas com muita facilidade, e parece que este processo esta ocorrendo comigo, haja visto nos assuntos abordados nas ultimas Crônicas, e como não poderia deixar de ser, os motivos sempre se referem á minha época de Taquaritinga, e nas minhas conversas com os amigos, quando conto algum fato ocorrido em minha cidade natal, ante a incredibilidade dos presentes, recorro ao testemunho de minha querida amiga e conterrânea, Tereza Cristina, que teria feito o Tiro de Guerra comigo, e ela, muito delicada, confirma (para não perder a amizade), ao contrario da minha irmã caçula, Maria Assunta, que sempre diz que são minha invencionices, mas como ela não é como o Repórter Esso, “o testemunho ocular da historia”, pois “nunca” morou em Taquaritinga, o que prevalece é o depoimento da Tereza.
Antes de entrarmos na Crônica de hoje, faremos uma pequena digressão, mas que indiretamente tem relação com a história a ser contada. Recentemente estive em Taquaritinga, e vi com satisfação que o Cine São Pedro havia sofrido uma reforma, pois a pintura externa do mesmo ostentava uma pintura nova, e que, mais importante, mantém o seu belo frontão romano, e, logo abaixo da cornija, em ambas laterais da fachada, permanecem em seus nichos, de um lado o busto de Verdi, e do outro lado não recordo de que musico, acho que de Carlos Gomes.
Lembrei-me então, que, no final da década de 40, o cinema sofreu uma alteração total em seu interior, e, lamentavelmente, perdeu todo o romantismo “del ottocento”, herdado do Scala de Milano, que, por sua vez sofreu uma grande influencia francesa, graças as invasões napoleônicas, que impuseram em toda Europa os gostos sofisticados dos franceses da época. O que prevalecia à época era o gosto e a vontade do Imperador, e não podemos nos esquecer das origens de Napoleone Buonaparte, o que equivale dizer o retorno à influencia dos mecenas italianos, pós Renascimento, como os Médici, os Sforza, os Borgia, Gonzaga, Orsini, Colonna, etc. Aliáz, que me perdoem os francófilos, mas não podemos nos esquecer que graças as legiões romanas, como comenta Giulio Cesare, em “De Bello Gálico”, na qual narra suas campanhas na Gália, esta era povoada por varias tribos, praticamente na idade da pedra, e após a instalação do acampamento militar romano na ilha, hoje La Citté, que deu origem a cidade de Parisio, e só assim os gauleses começaram a se tornar um só povo, que se transformou na França atual.
Voltando ao assunto em pauta, no cinema, antes da reforma da década de 40, a planta baixa era de forma de uma elipse, tendo em seu ovóide central, a platéia, que, ao contrário dos atuais, era em um só plano, dificultando as vezes a visão da tela, porem, como esta área era dedicada à plebe, estava muito bom; um pouco acima do nível da platéia, talvez um metro, circundando toda a elipse, ficavam as frizas, local usado pelas famílias” bem” da cidade, que ao invés de cadeiras de madeira, tinha poltronas, talvez meia dúzia em cada compartimento; por sobre esta área, ficavam os camarotes, no primeiro andar, com acomodações um pouco mais simples, mas também separados por balaustres de madeira, e este local era alcançado por escadas laterais; em seguida tinha o segundo andar, também chamado de poleiro ou galinheiro, cujas acomodações eram arquibancadas de madeira, local este acessado por uma escura e estreita escada de madeira, e em razão da natural obscuridade, era muito procurada pelos casais, que, de acordo com o grau de intimidade, iam subindo aos andares superiores, e isto obrigava a direção do cinema manter essa área, geralmente fechada por uma porta, com cadeado, talvez para evitar que alguém caísse no escuro e quebrasse alguma perna. O que mais impressionava neste edifício era o teto, que como um simulacro da Capela Sixtina, decorada por Michelangelo Buonarrotti, sob os auspícios do Papa Julio II, o Papa Guerreiro, nascido Giuliano Della Rovere, também mantinha as mais belas pinturas no estilo neo-romano, e eu não entendia como fora possível pintar essas cenas a tal altura. Fechando a boca de cena do palco, não nos esqueçamos que o local era um teatro, antes de abrirem-se as cortinas, que eram de veludo vermelho, havia um imenso painel, que era enrolado para o alto da coxia, antes do inicio das sessões cinematográficas, painel este que ostentava uma verdadeira pagina de classificados no qual eram inseridas propagandas das firmas locais. Infelizmente, após a reforma do fim da década de 40, nada disso foi conservado, ficando o cinema com a cara de tantos outros iguais, mas na minha memória persistem todos os detalhes acima descritos, fixados pela minha constante freqüência ao local, pois aquela época, nas noites de sábados, havia a exibição dos seriados, em vários capítulos, que as vezes demoravam meses, verdadeiros folhetins, e que cada capitulo terminava com um tremendo perigo, geralmente para a heroína, que era salva no próximo, pelo mocinho, e logo após o seriado, passava o filme de fundo. Lembro-me de alguns seriados, como Flash Gordon contra Fu Manchu, O Santo, O Zorro (que não era ao estilo mexicano, tendo companheiro de aventuras o índio Tonto), e os faroestes com Bill Elliot, que usavam dois revolveres, com a coronha para a frente, pois quando atirava sacava os dois, cruzando os braços sobre o peito, e era um arraso, Hapolong Cassidy, que contrastava seus cabelos brancos com sua roupa toda preta, e seu cavalo branco.
Como não tenho como comprovar o acima descrito, pois àquela época a Tereza nem havia nascido, ..... si non é vero, é bene trovato.
Como esta minha pequena digressão se prolongou muito, e não quero cansar ainda mais os leitores, o assunto desta Crônica fica para a próxima, que tem uma conotação com o cinema descrito, como será elucidado futuramente, como o maior acontecimento de minha vida, ocorrido em 1949, quando conheci a Dona Vilma, a quem dedico esta, e a próxima, pois ela merece uma Crônica só dela.
Glauco Costantini









