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ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 30 DE OUTUBRO DE 1919
Inicialmente, se faz necessário uma explicação sobre como eram escolhidos os candidatos a disputarem as eleições. Nessa época, vigorava a ditadura da Diretoria do Partido. Esta (a Diretoria do Partido) decidia quem deveria estar nas Câmaras de Vereadores, Câmara dos Deputados Federal e Estadual e no Senado Federal e Estadual. Eram apresentadas chapas fechadas, sem direito a escolha por parte dos eleitores. Portanto, os representantes da população eram escolhidos pela cúpula partidária, que mantinham o controle do partido. O partido dominante era o Partido Republicano Paulista, conhecido pela sigla PRP. A população só comparecia às eleições para referendar o que já havia sido decidido pela cúpula. Em virtude das disputas políticas internas, era comum que numa mesma cidade houvessem duas alas do mesmo partido (PRP) disputando o poder. Às vésperas das eleições para a escolha dos vereadores para o triênio 1920 a 1922, o grupo oposicionista se desintegrou. A 28 de agosto de 1919, foi o líder da oposição José Ferreira Leite que retirou-se da política e transferiu-se para São Paulo. Em seguida, a 16 de setembro de 1919, foi a vez do outro líder da oposição, cel. Gustavo Augusto de Moraes que se desligou das hostes oposicionistas. Estes políticos é que davam o suporte financeiro ao partido. A facção oposicionista sem os seus dois principais líderes se viu totalmente desestruturada. A facção situacionista, liderada por Dr. Jacintho de Souza não encontrou barreiras para continuar sua liderança política de nosso município. Avizinhavam-se as eleições, marcadas para 30 de outubro, para a escolha dos vereadores. O grupo situacionista lançou uma chapa fechada, isto é, indicando os nomes que o eleitorado deveria votar (referendar). Não houve disputa, visto que não havia concorrentes. Como salientamos, a chapa aprovada pelo Diretório do Partido Republicano era uma chapa completa, sem direito de escolha pelo eleitorado. Os nomes indicados pelo Diretório do Partido para vereadores foram os seguintes: Dr. Jacintho de Souza, advogado Cel. Francisco Gonçalves de Mendonça – lavrador, fazendeiro, em Cândido Rodrigues Major Thomaz Sebastião de Mendonça – lavrador, fazendeiro Major Francisco Florêncio da Rocha – proprietário – era dono de uma Casa Bancária Horácio Cunha – industrial – máquina de beneficiar café Joaquim Ferreira Campanhã – lavrador, fazendeiro Damião Antonio Gonçalves – lavrador, proprietário em Guariroba Cap. José Ferreira Vieira Júnior – industrial – máquina de café em Jurema Para suplentes de vereadores:
Mário da Silva Camargo, Sebastião Corrêa (este era filho de Pedro Paulo Corrêa, fazendeiro e político antigo), Januário da Cunha Melo, José Gonçalves Calado.
Escolha dos Juizes de Paz
Na mesma data, 30 de outubro, foram escolhidos os juizes de Paz dos Distritos de Taquaritinga, da Sede, Cândido Rodrigues, Jurema, Guariroba e Santa Ernestina. Os nomes indicados foram: Distrito Sede de Taquaritinga Cel.. Manoel Gomes de Mendonça, Cap. Francisco de Paula Ferreira (Chicão de Paula – fazendeiro), José Rodrigues Pinheiro.
Para suplentes: Domingos Gomes Mendonça, José Ferreira Campanhã, Luiz Gonzaga de Souza. Para Juiz de Paz do Distrito de Cândido Rodrigues
Manoel de Almeida Camargo, José Antunes Pereira, Henrique Savazzi
Suplentes: José Azzolini, João Pinto de Mendonça, Sílvio Bottini
Para Juiz de paz do Distrito de Jurema
Octávio de Bittencourt, Francisco Alves de Arruda, Firmino Negri
Suplentes: Theodomiro Júlio da Silveira João Frederico Germano, Mariano Donini
Para Juiz de Paz do Distrito de Guariroba
Joaquim da Costa Oliveira, Augusto Antonio Gonçalves, Lino Gomes de Sá Suplentes: Antonio Nunes da Silva, Felisberto Franco Furtado, Venez Ricardo de Oliveira Para Juiz de Paz do Distrito de Santa Ernestina
José Inocêncio do Amaral, José Alves Pereira, Paulo de Matos
Suplentes: Manuel Puerta, José d’Aloia, Carlos Bueno da Silva
Diretório do Partido Republicano de Taquaritinga Na mesma data, 30 de outubro de 1919, os eleitores teriam que se manifestar, escolhendo as pessoas que iriam compor o Diretório local do Partido Republicano. Para essa eleição, os nomes também foram indicados pelo Partido, em chapa fechada, sem direito à escolha de outros nomes se não os indicados. Em comunicado lançado no “Jornal de Taquritinga”, em sua edição de 23-10-1919 (uma semana antes das eleições), o Diretório informou que “. . . são candidatos à reeleição os atuais membros do Diretório, com exceção do sr. Antonio Moraes Silveira, entrando para a vaga deste o cel. Francisco Gonçalves de Mendonça. O Diretório do Partido Republicano de Taquaritinga ficou assim constituído: Dr. Jacintho de Souza – Presidente Dr. Joaquim Mariano da Costa – Vice Presidente Damião Antonio Gonçalves Major Francisco Florêncio da Rocha Horácio Cunha Pedro Paulo Corrêa Cel. Francisco Gonçalves de Mendonça Cel. Manoel Gomes de Mendonça Cel. José Ramalho
Dos nove nomes mencionados, cinco deles estavam indicados para vereadores: Dr. Jacintho de Souza, Damião Antonio Gonçalves, major Francisco Florêncio da Rocha, Horácio Cunha, cel. Francisco Gonçalves de Mendonça.
DESESTRUTURAÇÃO DA OPOSIÇÃO A oposição, através de seus líderes cel. Gustavo Augusto de Moraes, José Ferreira Leite, major Savério Calderazzo procurou por todos os meios desestabilizar a facção situacionista, junto ao eleitorado e à opinião pública. As escaramuças políticas se sucediam – a questão dos autógrafos, referente a um artigo publicado no jornal “Tribuna Liberal”, assinado pelo cel Gustavo Augusto de Moraes, contendo ataques injuriosos a Thomaz Sebastião de Mendonça; - outra matéria, desta feita através de um artigo publicado no mesmo jornal “Tribuna Liberal”, assinado por Carmino Caserta, atacando também membros da Família Mendonça. Outra polêmica envolvendo o cel Gustavo Augusto de Moraes e Thomaz Sebastião de Mendonça foi a questão dos instrumentos musicais envolvendo as Bandas “Gustavo de Moraes”, mantida pelo cel. Gustavo e a “Altino Arantes”, esta mantida pelo Thomaz S. de Mendonça. (vide verbete “As bandas de música”). Esses ataques desferidos pela oposição, tendo como ponto central, de um lado o cel. Gustavo e de outro Thomaz Mendonça tinham como objetivo principal da facção oposicionista uma tentativa de reconquistar a opinião pública e o eleitorado. Aproximavam-se as eleições de 30 de outubro (1919) para a escolha dos vereadores que iriam compor a legislatura 1920 a 1922. A oposição tentou se reorganizar. Tudo em vão. Os ‘CABEÇAS” oposicionistas – José Ferreira Leite e cel. Gustavo Augusto de Moraes – não conseguiram arregimentar pessoal e, em especial, recursos financeiros para dar suporte aos gastos com as eleições. A oposição e seus líderes foram perdendo espaço, dentro da política local. O primeiro a se afastar da política foi o líder José Ferreira Leite. No final do mês de agosto de 1919, fez publicar, pelos jornais da Capital e local, um aviso, retirando-se da política local e transferindo sua residência para São Paulo. Logo em seguida, foi o cel. Gustavo. Através de uma declaração, datada de 16-9-1919, publicada no jornal “Estado de São Paulo”, cujo texto é auto explicativo: “. . .Não tendo alguns dos meus companheiros do Diretório oposicionista concorrido com quantia suficiente para atender às despesas com as eleições de 30 de outubro próximo, retiro-me da política local. . . . . . . Devendo esta eleição ser muito dispendiosa. . . . como eu já tinha prevenido aos meus companheiros políticos e tendo eu feito sacrifícios, embora não tivesse obrigação de fazer, como havia combinado com aqueles que me convidaram para pleitear esta eleição, era indispensável que os meus companheiros entrassem com toda a quantia suficiente para se despender numa luta política renhida como devia ser esta. Por isso tomei essa resolução. Peço às pessoas que me honraram com as suas amizades, não mais falarem a mim em política. Fica o dinheiro em caixa à disposição de seus donos depois de rateados os compromissos que assumimos com alguns que trabalharam em serviço do partido e pagas as demais despesas. Taquaritinga, 16 de setembro de 1919 – Gustavo Augusto de Moraes (transcrito do “Estado de São Paulo” do dia 18 do corrente”. Outras pessoas se apressaram em vir a público, publicando declarações, como foi o caso do Sr. Paschoal Monteiro que “ . . a fim de evitar dúvidas quanto à sua situação na política local, declara que é filiado ao Partido Republicano de Taquaritinga, chefiado pelo Dr. Jacintho de Souza, ao qual prestará o seu incondicional apoio. 16-9-1919”. Outra perda de grande peso político foi a do cel. José Ramalho, que também não estava de bem com a oposição e acabou passando para o grupo situacionista, liderado por Dr. Jacintho de Souza. Nessa altura, a facção oposicionista estava esfacela e completamente desestruturada. Na verdade, o que faltou foi a contribuição financeira. Eram dois os elementos que tinham condições políticas de arregimentar a facção oposicionista: José Ferreira Leite e o cel Gustavo. Com a retirada, primeiro do sr. José Ferreira Leite e, em seguida, do cel. Gustavo, extinguiu-se por completo a facção oposicionista.
CEL. JOSÉ RAMALHO Coronel José Ramalho era fazendeiro e político influente na década de 1910. Pai do Dr. Horácio Ramalho e avô do Deputado Federal Dr. Dimas Ramalho. Sobre a figura deste político, transcrevemos parte de um artigo publicado no Jornal de Taquaritinga, edição de 2-11-1919 – nº 230: “. . . Dentre os elementos políticos deste município que, em tempos, militaram com a oposição, o de maior valor moral, pela sua situação econômica e social,, era e continua sendo o cel. José Ramalho, moderado chefe de numerosa e respeitável família, o cel José Ramalho jamais pactuou com aqueles que desejavam o poder, galgando-o por meios violentos. Esse elemento de valor encontrava-se num momento, afastado da política, tendo contribuído para que os últimos oposicionistas locais se abstivessem nas eleições últimas, deixando ao Partido Republicano dominante, sem dele pretender sequer uma cadeira de vereador. A sua atitude foi devidamente apreciada. Os responsáveis pela direção política local, compreendendo que os cidadãos de responsabilidade é a quem se deve cometer cargos donde ocorrem efeitos vantajosos para a comunhão, deliberaram oferecer-lhe um lugar no Diretório, a que o cel. Ramalho acedeu. Foi uma verdadeira conquista para o nosso Partido...” Assim, o cel. José Ramalho passou a integrar o grupo situacionista, inclusive fazendo parte do Diretório do Partido Republicano local.
O JORNAL E A BANDA DE MÚSICA–CORPORAÇÃO MUSICAL Chefe político que se prezava tinha que ter o seu jornal e sua banda de música, pois eram os dois meios de comunicação mais eficientes entre o político e a população. O jornal, como instrumento de ataque e defesa frente aos seus adversários e a banda como meio de aglutinação imediata da população, desfilando pelas ruas, participando em solenidades, em reuniões políticas, casamentos, enterros etc. Aqui em nossa cidade, não era diferente. Nos anos 1917, 1918, 1919, havia duas corporações musicais; a banda do cel Gustavo Augusto de Moraes, mantida pelo próprio e a banda “Altino Arantes”, tendo como seu mantenedor Thomaz Sebastião de Mendonça. Na época, não havia os carros de som, como ocorre atualmente. Ex: o carro de som do Deputado Estadual Geraldo Vinholi, que percorre as ruas da cidade, fazendo sua propaganda, veiculando seu nome. A banda de música era um instrumento indispensável como elemento de propaganda do seu mantenedor. A banda era requisitada para todos os eventos importantes, e durante a sua apresentação, destacava sempre o nome do seu patrocinador. O jornal era o instrumento mais eficiente de ataque e defesa, como já salientamos. A facção do Dr. Jacintho de Souza tinha seu jornal bisemanário, intitulado “Jornal de Taquaritinga”, enquanto a facção do major Calderazzo teve um jornal denominado “O Commercio” e depois, fundou um outro jornal sob o título “Tribuna Liberal”.
A POLÊMICA EM TORNO DOS INSTRUMENTOS DA BANDA
Quando o cel Gustavo era o líder político – o chefe - , ele mantinha uma banda de música, que se denominava “Corporação cel. Gustavo de Moraes”. Com a perda da chefia do Partido, quem organizou uma banda de música foi Thomaz Sebastião de Mendonça, que lhe deu o nome de “Corporação Altino Arantes”, em homenagem ao Presidente do Estado, na época. Nessa troca de comando da corporação musical, muitos instrumentos musicais ficaram em poder da banda mantida por Thomaz Mendonça. O cel. Gustavo tentou reavê-los, mas foi barrado. Cel. Gustavo comunicou ao Delegado de Polícia o que estava acontecendo. Por ordem de Thomaz, o regente da Corporação Musical levou os instrumentos para a sede da Câmara Municipal, desafiando, assim, o seu dono de retira-los. Foi diante desse gesto que cel. Gustavo dirigiu-se ao Delegado de Polícia, Dr. Ayres Torres, comunicando-lhe que iria à Câmara reaver os instrumentos “. . . . si o Sr. Thomaz Mendonça mantivesse o firme propósito de querer usurpá-los, como é seu hábito, toda vez que se trata de caso semelhante”. Em seguida, Thomaz Mendonça dirigiu um ofício ao Delegado de Polícia, depositando alguns instrumentos musicais, “. . . a fim de que essa Delegacia os entregue a quem os reclame fundamentadamente. . .” Num comunicado assinado pelo cel. Gustavo de Moraes, datado de 14-6-1919 e transcrito no “Jornal de Taquaritinga”, edição de 31-7-1919, nº 204, o autor assim se manifesta: “... Esta questão não precisaria ser debatida em público, para o próprio decoro do Sr. Thomaz Mendonça, si s.sª tivesse ao menos uma vez na vida um proceder correto, um ato de lisura, quer para com um amigo, quer para com um adversário, poupando, assim, o sacrifício que faço, em vir a público, com este esclarecimento, que lanço para conhecimento dos homens de bem . . . E continua: “Dada essa explicação, . . . convido o sr. Thomaz Mendonça, esse moço que se enriqueceu da noite para o dia, com o prejuízo e lágrimas de órfãos, viúvas e colonos, a recolher-se à sua vida íntima, a não pretender estabelecer paralelos entre si e cidadãos honestos daqui que jamais desceram a mão para levantar um níquel alheio”.
OS AUTÓGRAFOS DE UM ARTIGO INJURIOSO ASSINADO POR CEL. GUSTAVO AUGUSTO DE MORAES Mas, as provocações de ambos os lados não cessaram por aí. Agora foi a vez de Thomaz Mendonça contratacar. Na mesma edição do “Jornal de Taquaritinga”, de 31-7-1919, Thomaz Mendonça contratou um advogado da Capital, Dr. Atugasmin Medici, que assim se manifestou: “. . . A “Tribuna Liberal”, desta cidade, publicou um artigo firmado pelo cel. Gustavo Augusto de Moraes cheio de graves injúrias contra o meu cliente sr. Thomaz Sebastião de Mendonça. Alvejado diretamente em sua dignidade, com a imputação de fatos ofensivos da sua honra de homem honesto, procurou o sr. Thomaz os meus serviços profissionais, a fim de submeter o ataque injurioso ao conhecimento da Justiça, para a condenação do culpado. Requeri a competente exibição de autógrafos do artigo que diante vai produzido, posto em cotejo com as explicações prestadas em Juízo pelo cel. Gustavo”. A seguir vem a transcrição do Termo de explicações prestada, em Juízo, pelo cel. Gustavo: “Perguntado se o artigo publicado na Tribuna Liberal . . . . firmado por Gustavo Augusto de Moraes é de sua autoria ? Respondeu que confirma o que já declarou, anteriormente, de não dar explicações enquanto não for exibido o autógrafo; que não se recorda de ter assinado o referido artigo (sic); Perguntado: como explica que – não se recordando – ele suplicado de ter assinado o artigo em questão, o jornal do partido de que é chefe publicou numa seção paga o artigo firmado com o seu nome ? Respondeu que confirma suas declarações de não dar explicações enquanto não forem exibidos os autógrafos. Continua o advogado Dr. Medici: “. . . O representante do editor responsável entendeu de não oferecer os originais da publicação injuriosa, . . . resolvi citar pessoalmente o signatário daquele artigo para dar explicações em Juízo, no intuito de esclarecer a imputação de certos fatos”. E conclui o advogado: “. . . Diante das respostas dadas pelo cel. Gustavo de Moraes às perguntas que lhe foram feitas, o meu cliente desiste de intentar a queixa criminal contra quem não teve a hombridade cívica de sustentar categoricamente em juízo a autoria de seus ataques injuriosos, revelados numa publicação jornalística à sombra de seu nome. 30-7-1919 – o advogado Atugasmin Medici”.
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