NOSSA TAQUARITINGA
1908 – Jornal “O TEMPO”
          Tratava-se de um bissemanário que passava a circular em 23 de julho de 1908,
denominado “O TEMPO”. Os dados que constam do cabeçalho são os seguintes: edição de
23-7-1908 – Anno I – Nº 1 – órgão independente – publicação bissemanal director: Dr. José
Zaccaro – Redação e Oficinas: Rua Marechal Deodoro, 112 – Assignaturas – Anno 10$000 (dez
mil réis) – 6 meses – 6$000 (seis mil réis).
          Em sua edição número 1, destacavam-se assuntos relacionados com a política
local. Saliente-se que o jornal surgia logo após a criação e a instalação da Comarca de
Taquaritinga. A Comarca foi criada em novembro de 1907 e instalada em fevereiro de 1908.
Portanto, o jornal começava a funcionar cinco meses após a instalação da Comarca.
          O editorial de seu primeiro número sintetizava qual seria a filosofia, o
programa e atitudes a serem seguidas pela nova publicação. E faz uma pergunta: “. . .
Qual a attitude do nosso jornal ? Pensam muitos que o “O Tempo” será aggressivo,
exclusivamente partidário, com um interesse sempre crescente de discutir personalidades,
de enlamear reputações . . . Os que assim pensam laboram em profundo erro”.
          E complementa, respondendo à pergunta: “. . . Procuraremos sempre nos colocar
na esphera dos interesses do opulento município em que vivemos.  Pugnaremos pela ordem e
pela paz, pelo renascimento das honestas normas administrativas e pelo respeito à vontade
popular, convictos como estamos de que só por esses caminhos rectos poderemos attingir a
essa perfectibilidade que constitue o ideal dos povos cultos”.
          Embora conste no cabeçalho frontal a expressão “órgão independente”, na
realidade se constituía numa publicação que defendia uma das facções políticas: a do
coronel João Ferreira de Castilho, em oposição à facção que tinha como chefe político os
Braga.
          Predominava “o coronelismo”, e duas facções disputavam o cenário político: a
situação, que tinha como chefe político os Braga e a oposição chefiada pelo coronel
Gustavo de Moraes e que tinha como líder na Câmara Municipal o coronel João Ferreira de
Castilho. O jornal defendia a facção do coronel Gustavo de Moraes.
          Mas, o artigo de fundo, assinado simplesmente por “W”, é essencialmente
político, relatando e contestando fatos ocorridos que, resumidamente, se constituíram no
seguinte: “15 de junho, dia em que se realizou a última sessão ordinária da Câmara
Municipal. Havia exercido o cargo de prefeito municipal, até aquela data, Joaquim Machado
de Faro Rollemberg”. O jornalista enfatiza que Rollemberg era de “espírito violento e
impulsivo” praticados e tolerados por este povo ordeiro e pacato”. Expliquemos: havia
duas facções políticas, a que estava no governo , comandada por um elemento da família
Braga e a oposição que estava reunida no partido dirigido pelo coronel Gustavo Augusto de
Moraes.
          Na sessão realizada a 15 de junho, o sr. Rollemberg apresentou seu pedido de
renúncia ao cargo de prefeito municipal, que mereceu a seguinte observação do
articulista: “. . . Estava, pois, desde aquelle dia o município de Taquaritinga livre de
um dos seus mais fortes pesadelos. . .” Entretanto, na sessão de 15 de junho, tomou parte
entre seus pares, como vereador, Thomaz Sebastião de Mendonça.  O vereador coronel
Ferreira de Castilho, líder da oposição, contestou a presença do sr. Mendonça. “. . .
Tomando indevidamente um logar que jamais podia-lhe pertencer”. Não obstante o protesto
lançado pelo coronel Castilho, a Câmara Municipal elegeu o novo prefeito, Sr. Penteado. A
lei eleitoral da época determinava que “. . .o prefeito municipal será o vereador que
para isso for eleito pela Câmara Municipal, por maioria de vereadores presentes à
sessão”. No mesmo dia 15 de junho, o presidente da Câmara convocou uma sessão
extraordinária, no horário das 3 horas da tarde, na qual iria tratar da posse do novo
prefeito. A essa sessão compareceram 7 vereadores, entre eles o coronel Castilho, o seu
colega major Savério Calderazzo, que também exercia as funções de vice-prefeito. Tomou
parte, também, na referida sessão o sr. Thomaz Sebastião de Mendonça. Mais uma vez sua
presença foi contestada. Naquela oportunidade, o major Savério Calderazzo, vice prefeito,
declarou que como substituto legal do prefeito, assumiu as funções daquele cargo, visto
o mesmo se achar vago com a renúncia do sr. Rollemberg.
          A contestação do coronel Castilho e do major Calderazzo se baseava em dois
pontos: a) na sessão que se elegeu o sr. José Augusto Penteado ao cargo de prefeito,
tomou parte um cidadão, sr. Mendonça, que nada representava no seio da corporação
municipal. Esse argumento se baseava no fato de que na eleição realizada a 1º de março,
haviam sido eleitos vereadores os srs. Coronel Gustavo Augusto de Moraes e o
tenente-coronel Manoel Luiz Duarte; este último veio a falecer e o coronel Gustavo foi
excluído pela Câmara. A exclusão do vereador coronel Gustavo decorreu por ocasião da
recontagem, com a redução de votos, por motivo de nulidade.
          O partido da situação, comandado pelos Braga, aproveitou a oportunidade e
empossou o sr. Mendonça.
          b) se não estivesse presente o sr. Mendonça, consequentemente, o sr. Penteado
não teria conseguido a maioria, prevista pela lei que regia tal eleição. A oposição não
aceitava a posse do sr. Mendonça, sob a alegação de que a lei determinava que, em caso
de exclusão de vereador eleito, por redução de votos, por motivo de nulidade, teria que
se fazer nova eleição. E completava: “. . .O sr. Penteado obteve três votos e achavam-se
presentes à sessão seis vereadores legítimos . . . onde está a maioria que o sr. Penteado
obteve dos vereadores presentes à sessão extraordinária de 15 de junho ? . . . três será
maioria de seis ?”.
          Não obstante a contestação, a facção política dos Braga saiu vencedora, por
quatro a três, computando-se o voto do sr. Mendonça, empossando-se o novo prefeito sr.
Penteado.
          O impasse foi à decisão da justiça e o mesmo jornal “O TEMPO”, em sua edição de
26-7-1908, dava a notícia, sob o título “Prefeitura”, nos seguintes termos: “... Em
obediência à decisão do Tribunal de Justiça do Estado, reconhecendo a eleição do sr.
José Augusto Penteado para o cargo de prefeito deste município, cessaram as atribuições
do vice prefeito sr. major Savério Calderazzo, que dignamente exerceu aquelle cargo em
virtude da renúncia do sr. Joaquim Machado Rollemberg”.
          Revendo a relação cronológica dos prefeitos de Taquaritinga, notamos que a
referida publicação não registra a passagem do sr. Penteado como prefeito, eleito que foi
na sessão da Câmara Municipal de 15 de junho de 1908, após a renúncia do sr. Rollemberg.
A citada publicação registra que o sr. Rollemberg exerceu as funções de prefeito de
15-1-1908 a 15-1-1910 (fls. 123- L.2 )
          Continuando com a análise das notícias veiculadas pelo jornal “O TEMPO”, em sua
edição de 23-7-1908, destacamos mais alguns detalhes históricos. Em 1908, os Estados eram
governados por presidentes. O nosso Estado de São Paulo, à época, tinha como presidente o
sr. Albuquerque Lins;  o vice presidente era o coronel Fernando Prestes.
          Estava programada, para “. . . os primeiros dias de agosto”, a chegada do
coronel Fernando Prestes, vice presidente do Estado, em visita ao dr. Antonio Paiva de
Azevedo, juiz de Direito da Comarca. A Comarca foi instalada pelo MM Juiz de Direito Dr.
Antonio Paiva Azevedo, consequentemente, foi o primeiro Juiz de Direito da recém criada
e instalada comarca. No âmbito da política estadual, a oposição ao governo Albuquerque
Lins tinha como chefe supremo o sr. Tibiriçá, ex governador do Estado, acompanhado por
Cesário Bastos, Júlio Mesquita, Cincinato Braga. Tibiriça havia exercido o cargo de
Presidente do Estado antes de Albuquerque Lins assumir o governo do Estado.
          Na área econômico-financeira, o destaque era para a crise que perturbava o
país: “. . . Realmente, as praças de São Paulo e Santos atravessam um período de
agudíssima crise, crise que dia a dia mais se caracteriza e mais dificuldade causa ao
commercio que se vê seriamente ameaçado pelos embaraços que encontra em suas usuaes
transações”.
          No âmbito local, “. . . um grupo de distinctos cavalheiros de nossa sociedade,
irá organizar festas no anno próximo por occasião do primeiro aniversário da instalação
da comarca, por essa ocasião será distribuído um interessante trabalho contendo dados
curiosos sobre a fundação de Ribeirãozinho, seu desenvolvimento social e agrícola”.
Registra-se que a Comarca foi criada a 25 de novembro de 1907 e a sua instalação ocorreu
em 1908. A Comarca foi instalada pelo MM. Juiz de Direito dr. Antonio Paiva Azevedo,
consequentemente foi o primeiro juiz de Direito da recém criada comarca.
          Outra notícia local era sobre o surgimento, para os primeiros dias de setembro,
de um novo jornal, com a denominação de ”O RADICAL”, sob a direção do sr. Manoel de
Vanconcellos.
          Para o biênio de 1908 e 1909, haviam sido eleitos como síndicos para
funcionarem nas falências que porventura fossem decretadas, os srs. José Cosentino &
Irmão, Sebastião Garcia Veira, Nassif & Elias, Fiori Espósito, Archimedes Sivelli e
Elígio Bonazzi, todos grandes e conceituados comerciantes de nossa cidade.
          Na parte de literatura, o destaque era: “. . .Olavo Bilac, o grande poeta e
finíssimo orador, realizará brevemente em Rio Claro uma conferência literária”.
          Outra notícia estava relacionada com o estado sanitário do Rio de Janeiro,
que se encontrava atacado por uma epidemia de varíola “. . . A peste vermelha propaga-se
terrivelmente e isso se tem, triste é disel-o, pela incúria do povo da Capital da
República em praticar a única medida certa, infallivelmente certa contra o mal: a vacina.
” Prossegue a notícia: “. . .Oswaldo Cruz bem razão tinha quando pregava a
obrigatoriedade da vacina, e ante a recusa do povo, insuflado por um grupo de cérebros
doentios, predisse a calamidade que neste momento enlucta a primeira cidade do Brasil”.
E complementa: “. . . Em Taquaritinga não existia até agora um único posto. O jornal “O
TEMPO” instalou no prédio onde funcionava, um “posto vaccinico” gratuito”.
          O referido jornal já pugnava pela “creação do Distrito de Paz de Jurema”, sob a
justificativa de que o “vilarejo cresce, as construções urbanas se multiplicam, o
commercio se extende de modo admirável”.  Em 1908, a Estrada de Ferro chegou a Jurema e,
em 3 de agosto de 1912, foi elevada a Distrito e o Cartório de Paz foi instalado em 28 de
outubro de 1912. A mesma edição de 23-7-1908 traz a notícia de que “... em Jurema,
projectam grandes festas religiosas e profanas em louvor ao padroeiro d’aquela prospera
localidade. Festa de São João”.  Os festeiros foram Benedicto Mariano da Silva e Pardi
Bonaccio.
          O diretor do jornal era o dr. José Zaccaro, que também era médico e
proprietário da “Typographia Flora”, situada à rua Marechal Deodoro nº 112. Dr. Zaccaro
foi um dos fundadores da nossa Santa Casa . Meu avô Lázaro Peria, por volta do ano de
1916, era colono da Fazenda Diamantina, de propriedade de Gabriel Teixeira de Paula. Dr.
Zacarro era o médico que atendia os colonos da referida fazenda, tendo ido , inclusive,
atender a minha avó, que teve problemas após o parto de um de seus filhos.  Já em 1928,
uma notícia publicada no jornal “COMARCA DE CATANDUVA” , edição de 11 de abril de 1928,
dava conta de uma ocorrência policial em que uma das vítimas fora operada na Casa de
Saúde do dr. José Zaccaro, o que nos leva a concluir que o referido médico transferiu-se
de Taquaritinga para Catanduva.
          Outras notícias nos chamaram a atenção: estavam instalados em nossa cidade
quatro hotéis: Hotel Brazil (com “z”), na rua Marechal Deodoro, esquina com a Rua Campos
Sales, onde funcionou o posto de vendas da Peixe, atualmente está instalada a Pastelaria
Prudente, em frente à Nossa Caixa.; Hotel Central, Hotel Cosentino e Hotel Accorsi. Os
anúncios comerciais :
          Casa Militerno – Largo da Matriz 3 – novo sortimento de fazendas finas e
grossas.
          Casa Salerno – Ao Empório Meridional – de José Salerno – Rua do Commercio nº
28 – Casa Lemos – fazendas finas, armarinhos, calçado Rocha, livraria e papelaria – Rua
do Commércio nº 30 –
          Padaria Cosmopolita “pães que se rivalizam com os melhores da capital”,
rosquinhas de leite, sequilhos – Rua Municipal nº 69 – Salão de Barbeiro – Salão
Paulistano de Salvador Pagliarulli – Rua do Commercio – Loja Guarany de José Boamar- Rua
do Commercio nº 16 – Amedeo Gasparini – representante de Prudêncio F. & Silva,
comissarios em Santos – Rua do Commercio nº 61 –
          Typographia Flora de J. Zaccaro – Rua Marechal Deodoro 112 – Fábrica de
Macarrão de José Armentano- Rua do Commercio nº 59 –
          Engenho Central de Beneficiar Café, Arroz de Calderazzo & Ioverno
          Machina Ideal de beneficiar café e arroz de Antonio Blundi – Jurema – preço de
beneficio 400 réis por arroba –
          Engenho Central de beneficiar café e arroz de Gabriel de Paula & Cia. – Rua do
Triunpho nº 1 – trata-se do prédio próximo à Estação Rodoviária, onde eali esteve
instalada a firma Michelin.
          A firma Gabriel de Paula era representante da Casa Commissaria Malta & Comp.
cidade de Santos e era correspondente do Banco São Paulo.  Os bancos tinham poucas
agências instaladas, somente nas grandes praças; nas outras localidades, uma firma ou
pessoa física executava os serviços para o banco.  Eram os chamados “correspondentes”.
          Outro anúncio interessante: já naquela época (1908), existiam os consórcios
para aquisição de bens, que se denominavam “Club Cooperativo” . Por 5$000 (cinco mil
réis) por semana, o associado participava da compra de uma máquina de costura.
“Prospectos, catálogos, e informações com Antonio Cundari.
 
          Na edição de 26 de julho de 1908, que se constituiu na edição de número dois
do referido periódico bi-semanário, o assunto de destaque é sobre ‘As eleições
municipaes”. O editorial assim se manifesta: “ ...Avizinha-se o dia da nova luta em que
os partidos locaes vão disputar a colocação de seus vereadores em nossa Camara, logares
esses a serem preenchidos pelo facto da creação desta Comarca”. E prossegue: “... Ainda
está na memória de todos que se interessão por este município, a estupenda vitória
alcançada pelo valoroso partido que é dirigido pelo coronel Gustavo Augusto de Moraes nas
eleições realizadas a 1º de março p. passado”. Registra-se que as eleições municipais de
1º de março foram anuladas pelo Tribunal.  Infelizmente, não conseguimosmaiores detalhes
sobre o cancelamento dessas eleições.  A outra facção política era comandada pela família
dos Braga, em oposição à facção liderada pelo cel. Gustavo de Moraes, como tivemos a
oportunidade de registrar anteriormente.
          Uma outra notícia curiosa, que na realidade constituiu-se numa solicitação da
população, sob o título “VAMOS ÀS PIPAS”. Eis a notícia: “ . . . Tudo se cobre de terra.
As plantas vivem agora por ahi estioladas, o verde maravilhoso de suas folhas recobre-se
de pó, e a própria epiderme da gente delle está impregnado. . . . O commercio que vâ as
ondas fortes, terrivelmente invasoras de pó danificar-lhe as mercadorias, receberia com
grandes applausos a irrigação das ruas. À vista da gravidade do caso, sentimos todos a
necessidade de que se faça irrigação artificial , o socorro providencial das pipas”.
Desnecessário lembrar que as ruas não eram calçadas e o mês de julho é extremamente seco
e poeirento.
          Sobre o título “Notas e Reparos”, o jornal pede duas providências do governo do
Estado:  “. . .Entre outros melhoramentos materiaes de que a nossa cidade é carecedora,
pode-se enumerar entre ellas a cadeia pública, que esta a reclamar as mais solícitas
atenções do governo do Estado. O edifício da cadeia, feito para nelle funcionar um
simples posto policial, quando isto era apenas um districto de paz, pelas suas exíguas
proporções, falta absoluta de hyggiene e nenhuma segurança, está bem longe de satisfazer
às necessidades actuaes.
          A segunda solicitação é sobre o prédio do Forum: “. . . que está a pedir uma
caridosa substituição”.
          Outra notícia era sobre a “. . .estrada de rodagem que está sendo construída
tendo sido já ultimada a ponte sobre o Ribeirão dos Porcos a estrada que vai de Guariroba
a Jurema.  A nova estrada que deve ser entregue ao trânsito público dentre quinze ou
vinte dias, vai servir também e grandemente a povoação de Lageadinho”. Lageadinho é um
bairro localizado próximo à indústria Branco Peres, na Rodovia SP 333, que pertence ao
município de Itápolis.
          Ainda sobre o Lageadinho, a notícia dizia que “...o bairro quer incorporar-se
ao município de Taquaritinga. Já corre pelos habitantes uma representação nesse sentido.
Lageadinho já tem entre nós a sede de .suas transações commerciais, isso pela facilidade
de comunicação e de recursos que proporcionamos”. E complementa: “. . .O desejo de seus
habitantes de aqui exercerem os seus direitos políticos e civis, desejo esse que o nosso
Congresso Estadual deve attender”.
          Uma observação e um esclarecimento: a observação: o bairro do Lageadinho não
passou a pertencer ao nosso município – continuou pertencendo a Boa Vista das Pedras,
atual cidade de Itápolis. O esclarecimento: o antigo “Congresso Estadual” era formado
por duas Casas Legislativas: pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Estadual.
Atualmente, o Legislativo Estadual é composto apenas pela Assembléia Legislativa,
composta pelos Deputados Estaduais, representantes do povo de cada Estado. Não existe
mais a figura do Senado Estadual. A nível federal sim existem duas Casas Legislativas,
formadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, que ambas compõem o Congresso
Nacional.

          Foi um ano tumultuado, politicamente, em nossa cidade. Ocorreu a renúncia do
Prefeito Municipal, Joaquim Machado de Faro Rollemberg, que resultou uma dualidade de
prefeitos, pelo período de aproximadamente 40 dias e que somente foi dirimida pela
Justiça.
          No campo político, em janeiro de 1908, em sessão solene, tomava posse a nova
dministração municipal, eleita para o triênio 1908 a 1910, que estava assim constituída:
          Prefeito Municipal - Joaquim Machado de Faro Rollemberg
          Vice Prefeito -  major Savério Calderazo

          Presidente da Câmara Municipal – João Braga
          Vice presidente - José Augusto Penteado

          Vereadores – cel. João Ferreira de Castilho, Orestes José de Miranda.

          ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL – COMO ERA CONSTITUÍDA
          A Lei nº 1.103, de 26 de novembro de 1907 estabeleceu os parâmetros sobre a
organização municipal. Essa Lei modificou a Lei nº 1038, de 19 de dezembro de 1906.
          Em seu artigo 1º, a Lei 1.103 estabelecia que “A administração dos municípios
será exercida pelas câmaras municipais, compostas de vereadores, eleitos por sufrágio
direto, e por um prefeito municipal e subprefeitos distritais, eleitos pelas câmaras”.
          Já o parágrafo 1º desse artigo dizia que “O prefeito municipal será o vereador
que para isso for eleito pela Câmara Municipal, por maioria dos vereadores presentes à
sessão”. O parágrafo 2º estabelecia que “Em suas faltas e impedimentos, o prefeito será
substituído pelo vice-prefeito, eleito anualmente pela câmara dentre os vereadores”.
          O parágrafo 2º regulamentava o prazo de duração dos mandatos: “O mandato dos
vereadores durará três anos, a contar de 15 de janeiro de 1908, e o do prefeito e
subprefeitos um ano, sendo permitida a reeleição”.

          Dr. LUIZ DOS SANTOS DUMONT
          Coronel Gustavo Augusto de Moraes era o chefe político local. Pertencia ao
Partido Republicano de Taquaritinga.  Entretanto, quem indicava os nomes era o Presidente
do Diretório político local. (vide verbete “GUSTAVO AUGUSTO DE MORAES)
          A Comissão Diretora do Partido Republicano Paulista, em São Paulo, indicou para
Presidente do Diretorio Político local o Dr. Luiz Santos Dumont. Este senhor era parente
de Santos Dumont, o “Pai da Aviação”.
          Dr. Luiz Santos Dumont era proprietário de uma extensa gleba de terra, que
abrangia Santa Adélia, São João d’Ariranha e Barra Grande .
          Embora fosse o presidente do Diretório do Partido, pouco permanecia em nossa
cidade. Vinha por aqui duas ou três vezes por ano e quando vinha era apenas de passagem,
em direção à sua propriedade agrícola acima citada.
          Entretanto, as tomadas das decisões políticas, tais como, a relação dos nomes
dos candidatos a vereador, a escolha do Presidente e do Vice Presidente da Câmara; do
Prefeito Municpal e do Vice Prefeito tinham que passar pela sua aprovação e pela sua
concordância, junto à Comissão Diretora do Partido, em São Paulo.
          A sua força política junto ao Partido era grande, a ponto de interferir no
traçado da nascente Estrada de Ferro Araraquara, alterando, inclusive, o traçado da
mesma, para fazer passar dentro de sua propriedade, interferindo onde deveriam ser
construídas as estações da linha férrea, dentro de sua propriedade. Uma das estações, à
época, era denominada “Estação Dumont”, que depois passou a denominar-se “Estação Santa
Sofia”.
          Apenas, relembrando: Nessa época (1908), a Estrada de Ferro estava estendendo
os trilhos em direção a Rio Preto. Em 1901, chegou em Ribeirãozinho. Os trabalhos ficaram
parados, por questões financeiras. Só em 1908, chegou em Jurema, Icoarana, Candido
Rodrigues, Fernando Prestes.  Em seguida, já estava nas terras de propriedade do Sr.
Santos Dumont.
          A força política do Dr. Luiz Santos Dumont era tão forte a ponto de interferir
nas divisas do município, conforme notícia publicada no jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”,
em sua edição de 27 de novembro de 1907, na seção “Congresso Legislativo – Câmara dos
Deputados: “Entrando em terceira discussão o projeto n. 34, desanexando do município de
Monte Alto e incorporando ao de Ribeirãozinho a fazenda do Dr. Luiz dos Santos Dumont, o
deputado Joào Sampaio fez ver a conveniência de ser aprovado esse projeto com uma emenda,
substituindo o nome de Ribeirãozinho pelo de Taquaritinga, de acordo com a lei recente
que, criando a comarca de Ribeirãozinho, lhe dera aquela denominação.” (Lembre-se que,
pela Lei nº 1.102-A, de 25 de novembro de 1907, foi criada a comarca de Ribeirãozinho,
com a denominação de Taquaritinga. Posteriormente, a 10 de dezembro de 1907, portanto
quinze dias após, o projeto foi aprovado e transformado na Lei nº 1.109, conforme relato
a seguir)
          O projeto foi aprovado e transformado na Lei nº 1.109, de 10 de dezembro de
1907, cujo teor é o seguinte:
          “Desanexa do município de Monte Alto e incorpora ao de Taquaritinga a fazenda
do dr. Luiz dos Santos Dumont
          O dr. Jorge Tibiriça, presidente do Estado de São Paulo,
          Faço saber que o Congresso Legislativo do Estado decretou e eu promulgo a
seguintelei:
          Art. 1º - Fica desanexada do município de Monte Alto e incorporada ao de
Taquaritinga a fazenda de propriedade do dr. Luiz dos Santos Dumont.
          Art. 2º -As divisas entre aqueles municípios ficam assim estabelecidas:
Partindo do divisor das águas dos ribeirões das Três Barras, Cubatão e S. Domingos,
alcançarão a cabeceira do corrego Barra Grande, seguindo por este abaixo até o ribeirão
de S. Domingos, por este acima até o corrego do Zinco, por este acima até a sua
cabeceira, daí pelo espigão dividindo as águas dos corregos das Antas e dos Alves até o
divisor das águas do Ribeirão da Onça, daí pelo divisor das águas entre o Ribeirão da
Onça, de um lado, e os ribeirões S. Domingos e dos Porcos do outro, até o divisor das
águas do corrego Rico; daí seguirão à esquerda pelo espigão, a alcançar a cebeceira de um
córrego, em terras de Luiz Moraes e irmãos Ainelli, por este córrego abaixo até o córrego
que vem da propriedade de Gustavo Augusto de Moraes; por este abaixo até o corrego Rico,
e por este abaixo até encontrar as divisas de Jaboticabal.
          Esta Lei está assinada por Jorge Tibiriça, Presidente do Estado e por Gustavo
de Oliveira Godoy, secretário de Estado dos Negócios do Interior.
          Transcrevemos na íntegra o teor da Lei por dois motivos: primeiro, para
demonstrar a influência política do Dr. Santos Dumont e, em segundo lugar, como dado
histórico para demonstrar como eram constituídas as divisas do nosso município e o de
Monte Alto. Sobre as divisas do município, vide o verbete “DELIMITAÇÕES DA FREGUESIA DE
RIBEIRÃOZINHO” .

          OS ANTECEDENTES DA CRISE POLÍTICA
          Os antecedentes remontam ao ano de 1906. Nesse ano começaram os trabalhos para
a captação e abastecimento de água para a cidade.
          Foi aberta a “concorrência” para a execução desses serviços. A Câmara Municipal
contratou a firma “HORTA & ROLLEMBERG” , de São Paulo, sendo os seus sócios o Sr.
Joaquim Machado de Faro Rollemberg e Dr. Camilo Horta, tendo como empreiteiro da execução
desses serviços o Sr. José Maragliano, também de São Paulo. O valor do contrato foi de
250 contos de réis.
          Mas, o Município não tinha essa importância. Emitiu títulos e entregou-os à
firma contratada.  Visto que a Prefeitura não tinha crédito junto aos Bancos para efetuar
os descontos desses títulos, o empreiteiro foi obrigado a paralizar os serviços.
          Foi em função desse contrato para o abastecimento de água que aqui aportou o
Sr. Joaquim Machado de Faro Rollemberg, em 1906. Procurou estabelecer base política aqui
em nossa cidade, visto que tinha o apoio da Comissão Diretora do Partido, em São Paulo.
          No início do ano de 1908, o chefe político local, cel. Gustavo Augusto de
Moraes foi chamado pelo Sr. Dr. Luiz Santos Dumont, presidente do Diretório local, e
convocado pela Comissão Diretora do Partido, em São Paulo, visando a “conciliação
política” em nosso município.
          Entretanto, o que ocorreu foi que o cel Gustavo trouxe os nomes indicados pela
Comissão Diretora, nomes esses que deveriam ser eleitos vereadores, sem direito a
qualquer alteração dos nomes por parte do Partido local.
          Os nomes indicados eram : Joaquim Machado de Faro Rollemberg, João Braga, José
Augusto Penteado, Oreste Miranda.
          Com o apoio do líder local, cel Gustavo Augusto de Moraes os nomes indicados
foram eleitos. Foram indicados pela Comissão Diretora quem seriam o Prefeito, Vice,
Presidente da Câmara e Vice. O presidente da Câmara indicado foi João Braga; o vice o Sr.
José Augusto Penteado;  O Prefeito indicado foi Joaquim Machado de Faro Rollemberg e o
vice o major Savério Calderazo (este era da oposição).
          Porém, logo após a posse do prefeito e do presidente da Câmara, o grupo que
estava no poder colocaram o cel Gustavo a “escanteio”.
 
          JOAQUIM MACHADO DE FARO ROLLEMBERG

          Logo o Prefeito Rollemberg começou a exorbitar de suas funções: era arrogante,;
demitiu empregados da Prefeitura que eram favoráveis à outra facção; mandou arrombar o
cofre municipal; arrombaram as gavetas do arquivo da Secretaria da Câmara. Na época, foi
acusado de destinar boa parte do dinheiro arrecadado pela prefeitura, remetendo ao seu
sócio em São Paulo, Dr. Camilo Horta, sócio no projeto de abastecimento de água.
          Como vimos, com a indicação da Comissão Diretora do Partido, em São Paulo,
Sr. Joaquim Rollemberg elegeu-se vereador e foi “escolhido” pelos demais vereadores para
o cargo de Prefeito Municipal.
          Pouco ficava em nossa cidade. A sua gestão era intercalada de reiterados
pedidos de licença. Prova disso é que no ato solene da instalação da Comarca que ocorreu
a 4 de fevereiro de 1908, o Sr. Rollemberg não esteve presente, conforme pode se
constatar no verbete “ Ata da Instalação da Comarca”, inserido em outro arquivo.
          O jornal “O TEMPO” que era oposição, em seu primeiro número, editado em 23 de
julho de 1908, em seu editorial sobre política local, sob o título “Prefeituras Municipais”,
relata os fatos ocorridos na sessão da Câmara Municipal, realizada a 15 de junho de
1908:
          “. . . Dos fatos – exerceu o cargo de prefeito municipal até aquela data
(15-6-1908) o Sr. Joaquim Machado de Faro Rollemberg, de espírito violento e explosivo...
O Sr. Rollemberg tornou-se o alvo das queixas populares, tanto foram os desatinos por
ele praticados; . . . déspota e arrogante. . . . Reunida a Câmara, em sessão naquele dia,
ilegalmente reunida por permitir em seu seio, um intruso que dela não fazia parte. . .
          O “intruso” mencionado era o Sr. Thomaz Sebastião de Mendonça.
          Continua o jornal “O TEMPO”: . . . O Sr. Rollemberg, nessa sessão, apresentou
sua renúncia do cargo de prefeito.
          Acontece que participou da sessão o Sr. Thomaz Sebastião de Mendonça que,
segundo o citado jornal “. . . não poderia ter participado da sessão como vereador”.

          COMO ACONTECERAM OS FATOS
          Duas facções disputavam o cenário político: a facção situacionista, que tinha
como seu líder o Sr. Joaquim Machado de Faro Rollemberg, acompanhado de seu cupincha
o Sr. João Braga.
          A oposição tinha como líderes políticos o major Savério Calderazzo e o cel.
João Ferreira de Castilho.
          Com o pedido de renúncia apresentado pelo Sr. Joaquim Rollemberg, criou-se um
impasse : quem iria ocupar o cargo de prefeito.
          O vice prefeito escolhido pela Câmara era o major Savério Calderazo. Na ordem
natural de sucessão, deveria assumir o cargo de prefeito o vice, Sr. Calderazzo. Acontece
que como o sr. Calderazzo era da facção política contrária, isto é, era da oposição, a
Câmara houve por bem eleger um novo prefeito e não empossar o vice, major Calderazzo.
          Na sessão da Câmara de 15 de junho de 1908, compareceram sete vereadores e
entre eles estava o Sr. Thomaz Sebastião de Mendonça, cuja presença era contestada pela
oposição.
          Naquela oportunidade, o Sr. Savério Calderazzo declarou que, como vice prefeito
eleito e substituto legal do prefeito, assumia as funções daquele cargo, visto que o
mesmo se achava vago com a renúncia do Sr. Rollemberg.
          Na eleição para a escolha dos vereadores, haviam sido eleitos os Srs. Cel.
Gustavo Augusto de Moraes e o Tenente cel. Manoel Luiz Duarte.  Este último veio a
falecer e o cel. Gustavo foi excluído pela Câmara. A sua exclusão decorreu por ocasião
da recontagem, com redução de votos, por motivo de nulidades.
          O partido situacionista que tinha na presidência da Câmara o Sr. João Braga,
aproveitou a oportunidade e empossou um de seus correligionários, o Sr. Thomaz Sebastião
de Mendonça. Este não havia conseguido número suficiente de votos para se eleger na
eleição para a escolha dos vereadores.
          A oposição contestou a presença do Sr. Thomaz Mendonça mas, sem sucesso.
          O vereador cel. João Ferreira de Castilho, líder na Câmara do grupo
oposicionista, contestou, mas não foi aceita a sua reclamação.
          Às duas horas da tarde do mesmo dia, os vereadores foram convocados para uma
nova sessão, para às três horas da tarde, tendo como finalidade tratar da posse do novo
prefeito.
          Aberta a sessão, estavam presentes os vereadores, inclusive o sr. Thomaz
Mendonça, cuja presença era contestada.
          Os vereadores cel. Castilho e major Calderazzo que, além de vereador era o vice
prefeito, voltaram a protestar, sem sucesso.
          O presidente da Câmara, Sr. João Braga, encaminhou a votação, sendo eleito, com
quatro votos, o Sr. José Augusto Penteado novo prefeito municipal, tendo sido computado o
voto do Sr. Thomaz Mendonça. Segundo o grupo oposicionista, esse voto era nulo e por isso
o nome do Sr. Penteado recebera apenas três votos, portanto não havia alcançado a maioria
prevista em lei. A lei que vigorava dizia o seguinte:
          “. . . O Prefeito municipal será o vereador que para isso for eleito pela
Câmara, por maioria de vereadores presentes à sessão”.
          O grupo oposicionista alegava que o Sr. Penteado tendo obtido três votos e
sendo que achavam-se presentes à sessão seis vereadores legítimos, . . . portanto, três
votos não correspondia à maioria exigida pela lei.
          A oposição insistia que o major Calderazzo deveria exercer o cargo de prefeito
até que a Câmara elegesse novo prefeito, com a maioria de votos exigida por lei.
          Não obstante a contestação apresentada pelo grupo oposicionista, o presidente
da Câmara deu posse ao novo prefeito, Sr. Penteado, por quatro votos contra três,
computando-se o voto do Sr. Thomaz Mendonça.  


          DECISÃO DA JUSTIÇA
          O impasse foi à decisão da Justiça.  Na edição de 26 de julho de 1908, o jornal
“O TEMPO”, em uma nota, registra que “. . . em obediência à decisão do Tribunal de
Justiça do Estado, reconhecendo a eleição do Sr. José Augusto Penteado para o cargo de
prefeito municipal, cessaram as atribuições do vice prefeito major Savério Calderazzo,
em virtude da renúncia do Sr. Joaquim Machado de Faro Rollemberg”.
          Com a confirmação pelo Tribunal, reconhecendo a eleição do Sr. José Augusto
Penteado para o cargo de Prefeito, ficou encerrada a polêmica deste caso.
          O Tribunal determinou que fossem realizadas novas eleições para o preenchimento
das duas vagas de vereador e a não permanência do Sr. Thomaz de Mendonça como vereador.

          DUALIDADE DE PREFEITOS
          Entretanto, desde 15 de junho de 1908, até a data da decisão judicial, tivemos
uma dualidade de prefeitos: José Augusto Penteado e major Savério Calderazzo.

          NOVAS ELEIÇÕES PARA ESCOLHA DE DOIS VEREADORES
          O Tribunal determinou que fossem realizadas novas eleições para o
preenchimento das duas vagas abertas: uma pelo falecimento do Tenente cel. Manoel Luiz
Duarte e a do cel. Gustavo Augusto de Moraes, excluído, após a recontagem dos votos.
          A nova eleição realizou-se a 6 de setembro de 1908.

          COMO SE DESENROLARAM AS ELEIÇÕES DE 6 DE SETEMBRO
          A facção oposicionista lançou dois candidatos: Cel Gustavo Augusto de Moraes e
o Capitão Eduardo Alves da Silva. O grupo situacionista lançou Thomaz Sebastião de
Mendonça e o dentista Rômulo Algodoal.
          Os cndidatos obtiveram as seguintes votações:
          Grupo oposicionista:
          Cel Gustavo Augusto de Moraes . . . . . 148 votos
          Cap. Eduardo Alves da Silva . . . . . . . . 139 votos, totalizando 287 votos

          Grupo situacionista
          Thomaz Sebastião de Mendonça . . . . . 181 votos
          Rômulo Algodoal . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 voto, totalizando 182 votos

          Foram eleitos o cel Gustavo Augusto de Moraes, da oposição e Thomaz Sebastião
de Mendonça, da facção situacionista.
          A oposição mostrou-se satisfeitíssima com o resultado, pois conseguiu quase
dois terços dos votos (287 votos contra 182 da situação), conforme consta do editorial do
jornal “O TEMPO”, “. . . podemos afirmar: a maioria, a grande maioria do Partido
Republicano de Taquaritinga está ao lado de Gustavo Augusto de Moraes”.

          ESTRATÉGIA POLÍTICA DO GRUPO SITUACIONISTA
          A facção do cel. Gustavo Augusto de Moraes votou nos seus dois candidatos –
cel. Gustavo que obteve 148 votos e Cap. Eduardo, que obteve 139 votos.
          Já a facção situacionista, embora tivesse apresentado, oficialmente, dois
candidatos, mas a votação concentrou-se em cima do nome de Thomaz Sebastião de Mendonça,
que obteve 181 votos e o seu companheiro de chapa – Sr. Rômulo Algodoal – obteve apenas
um voto.
          Se o grupo situacionista não tivesse adotado essa estratégia, não teria logrado
êxito e não teria eleito nenhum vereador. Adotada essa estratégia, conseguiu equilibrar
as forças, elegendo um vereador, que foi o sr. Thomaz Mendonça.
 
          JORNAIS POLÍTICOS
          Depois do qüiproquó político que culminou com a renúncia do Sr. Joaquim
Rollemberg e a eleição do sr. José Augusto Penteado ao cargo de prefeito, a situação
política se acirrou ainda mais.
          A oposição fundou, em 23 de julho de 1908 o jornal “O TEMPO” , para defender
sua posição política, tendo como seu diretor o médico Dr. José Zaccaro.
          Logo em seguida, um mês depois, o grupo situacionista procurou se armar com a
mesma arma: adiquiriu o jornal “CORREIO DO INTERIOR”, que circulava desde 1905, para
contrabalançar as forças.
          O jornal “O TEMPO”, em sua edição de 13-8-1908 – nº 7 – publicou a seguinte
notícia:
          “. . . NOVO JORNAL – O Sr. Machado Rollemberg, Dr. Tourinho Bittencourt e João
Braga adquirirão o material tipográfico do “Correio do Interior”. Dentro de pouco
teremos pois um novo órgão de publicidade de propriedade daqueles senhores, sendo a
redação confiada ao Dr. Tourinho de Bittencourt e ao Dr. Antonio de Castro. Não sabemos
ainda o nome do novo jornal.
          Esse novo jornal fundado por pessoas ligadas ao grupo político situacionista
e que vinha com o objetivo de combater com o jornal da oposição, que era “O TEMPO”.
          O novo jornal passou a chamar-se “CIDADE DE TAQUARITINGA”, que era órgão ligado
ao grupo situacionista.
          OBS: Esse jornal “Cidade de Taquaritinga” que passou a ser editado em 1908,
nada tem a ver com o atual jornal do mesmo nome “Cidade de Taquaritinga”, de propriedade
da família Aielo, este fundado no ano de 1931.

          APÓS AS ELEIÇÕES DE 6 DE SETEMBRO DE 1908
          Passadas as eleições, o jornal “O TEMPO” defendia a idéia de pacificação na
política local, mas clamava para que as autoridades tomassem providências para os
seguintes pontos: “ . . não temos água potável, apesar de termos o encanamento feito e a
caixa d’agua (seca); não temos um grupo escolar, nem escolas em número suficiente; não
temos uma cadeia em uma comarca de maior movimento criminal que Jaboticabal; não temos
edíficio para o Fórum . . . enfim, nada temos para o conforto da população”.

          COMENTÁRIOS SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA EM 1908
 
          A respeito da atuação política de Joaquim Rollemberg e de seus correligionários
aqui em nossa cidade, transcrevemos uma matéria publicada no jornal, assinada por Manoel
de Vasconcellos, datada de 6 de março de 1908, sob o título “Secção Livre – AO POVO – O
Prefeito Municipal Joaquim Machado de Faro Rollemberg não esperava entrar em um círculo
de ferro e ser guerreado fortemente como está sendo na política de Taquaritinga.
          E si aconteceu é porque s. sª . não tem absolutamente noção de política e muito
menos do cargo que ora ocupa.  Para se exercer o cargo de Prefeito é preciso que seja um
homem de inteira confiança do povo, moderado, criterioso e que tenha bom senso para saber
dirigir as rédeas municipais.
          Ele, como todos os seus companheiros, querem à força merecer a confiança do
povo, porém, estão completamente enganados.  Disso sabia-se e até mesmo falou-se quando
o nosso prestigioso chefe político Coronel Gustavo Augusto de Moraes, na capital, a
chamado do sr. Doutor Santos Dumont, foi para se fazer a conciliação política.
          Quando o Coronel Gustavo Augusto de Moraes, nosso prestigioso chefe político,
de regresso da capital, trouxe os nomes indicados para serem eleitos vereadores, o
eleitorado os aceitou por ser arregimentado, porém, contra a vontade geral, compareceu às
urnas e contrariado votou para ser eleito um magote sem importância, sem elemento
(sem apoio) conseguintemente sem prestígio algum como são Joaquim Machado Rollemberg,
João Braga, José Augusto Penteado e Oreste Miranda.
          O Coronel Gustavo de Moraes foi avisado e bem avisado que esses homens não
prestavam e além disto dentre eles existe um “Judas Iscariotes” – tipo
caracteristicamente hipócrita – João Braga – porém confiados na palavra dos homens o
nosso chefe Coronel Gustavo de Moraes aceitou-os e os elegeu vereadores com o seu
eleitorado. Entretanto, dentro de dois meses esses hipócritas, ajudados pelo falso e
traidor político João Braga, tentaram dar o coice em o nosso chefe prestigioso Coronel
Gustavo de Moraes, porém, foi muito cedo porque estávamos todos de prontidão à espera da
traição que tinha de aparecer tarde ou cedo.  Ora, refletindo-se um pouco sobre o
procedimento desse magote de vereadores municipais, tira-se a conclusão de que eles são,
em política, verdadeiros cegos e analfabetos inqualificáveis, que não conhecem a
engrenagem política, não tem noção alguma para conquistarem a simpatia popular.
          A cegueira da Câmara Municipal é tão grande que eles colocam os pés pelas mãos,
cometem toda sorte de asneiras, demitem acintosamente os empregados a bem do serviço
público, arrombaram o cofre municipal, arrombaram as gavetas do arquivo da Secretaria da
Câmara, finalmente cometem diariamente verdadeiro papel de loucos.
          O agrônomo Joaquim Machado Rollemberg logo que foi dentre eles, por combinação
com o nosso chefe Coronel Gustavo Augusto de Moraes eleito Prefeito Municipal julgou ter
o rei dentro da barriga, começou impor no povo, amedrontando-o, berrando e vociferando,
dando com os braços e com os pés e na véspera desta última eleição, chegou até a
praticar papel de verdadeiro doido! ! Mandou imprimir mil memorandos para a Prefeitura
onde colocou o título de doutor ! ! ! Que absurdo, meu Deus ! ! é cúmulo !  Em que
academia esse homem se formou, para usar título de doutor ? Na academia da Taquara, na
de São João d’Ariranha ou na de Rio Preto ? É um crime cometido e previsto no Código
Penal em que caiu redondamente Joaquim Machado Rollemberg infelizmente e por caipora
(sujeito que, de acordo com a crendice popular, traz desgraça às pessoas de quem se
aproxima) desta cidade, eleito Prefeito Municipal, encostado no cofre da Câmara, à espera
do dinheiro que entra para remeter ao seu sócio de divisões de terras, em São Paulo,
Doutor Camilo Horta.
          Um conselho damos ao sr. Machado Rollemberg abem de si mesmo. Resigne o cargo
de vereador quanto antes porque deve estar convencido que esta população o odeia, e até
seria de bom aviso mudar-se daqui. S. s. não sabe lidar com o povo.
          O mesmo conselho damos ao sr. João Braga, pois estão ambos incompatibilizados
com este generoso povo que sabe respeitar a quem merece respeito; mas que também sabe
despresar aos despresíveis. Em resumo, os dois traidores políticos Machado Rollemberg e
Joào Braga, não merecem consideração mais desta população que os detesta pela vilania com
que acabaram de proceder, traindo os que os elegeram, porque como todos sabem eles não
dispoem de elemento (de apoio) algum neste município, e só foram eleitos porque se diziam
amigos do nosso chefe coronel Gustavo de Moraes.  A maldição popular hoje recai sobre
eles que já foram vaiados em plena sessão da Câmara Municipal, e si outra coisa não
sofreram foi devido à interferência do digno Doutor Joaquim Mariano da Costa.
          Antes de concluirmos, precisamos orientar o público, devemos fazer ciente que
um dinheiro que há poucos dias, ultimamente, o sr. Machado Rollemberg deu ao negociante
José Cosentino, nesta cidade, havia uma nota falsa que foi apreendida e está em poder da
polícia, aguardando o respectivo inquérito. Isto, ligado a um inquerito ultimamente
havido aqui contra a firma Horta & Rollemberg por introdução de notas falsas em
circulação, talvez encontre explicação.
          Reservamos mais análise que pretendemos continuar dos atos destes cavalheiros
de tristes figuras, para os seguintes artigos. Taquaritinga, 6 de março de 1908 a) Manoel
de Vasconcellos”.