NOSSA TAQUARITINGA
1905 – Jornal “O Correio do Interior”
          A 13 de janeiro de 1905 começou a circular o jornal “Correio do Interior” de
propriedade do rábula português Antonio de Castro.
          Em sua edição de 9 de julho de 1905, consta em seu cabeçalho: O Correio do
Interior, periódico imparcial, agrícola, comercial e literário – Ano I – Nº 14 –
propriedade de uma associação – Redação e oficina – Rua Municipal, 58 – Ribeirãozinho,
Estado de São Paulo – Brazil (com “z”) – Domingo, 9 de julho de 1905 – Assinatura; por
ano 12$000 (doze mil réis) – por semestre 8$000 (oito mil réis) – número avulso – 300 réis.
          O jornal havia iniciado suas atividades em 9 de abril de 1905, com uma tiragem
de 1.200 exemplares. O jornal, como o seu próprio título sugere, trazia notícias da
região, de outras cidades mais distantes do interior, notícias nacionais, regionais e
locais.
          O editorial aborda um aspecto da política nacional. No artigo de fundo,
intitulado “Candidaturas”, o articulista, que se assina apenas “S”, se insurge contra a
candidatura de Campos Sales para disputar as eleições para a presidência da República,
“. . . não porque à S. Excia. faltem os títulos e os predicados necessários e
indispensáveis ao supremo chefe da Nação, mas tão somente por ser S. Excia. Paulista”.
          E continua: “. . . Achamos que o glorioso Estado de São Paulo não deve a bem
da Pátria e a República descontentar os outros Estados, sensibilizando-os com o monopólio
odioso da sucessão presidencial. Desse exclusivismo pode por ventura nascer a separação e,
portanto, o esfacelamento dessa Pátria que devemos ver unida e forte, grande e respeitada”.
          E conclui: “. . .achamos que a apresentação de sua candidatura à suprema curul
da República é inoportuna”.
          Abrindo um parênteses, apenas para nos situarmos dentro do contexto histórico:
após a proclamação da República, em 1889, os dois primeiros presidentes eleitos foram
militares; depois seguiram-se três presidentes paulistas, a saber:
          De 25-2-1891 a 23-11-1891 – Marechal Deodoro da Fonseca – militar
          De 23-11-1891 a 15-11-1894 – Floriano Peixoto – militar – era o vice presidente
e assumiu com a renúncia de Deodoro da Fonseca
          De 15-11-1894 a 15-11-1898 – Prudente José de Moraes Barros – paulista
          Foi o primeiro presidente cicil da República
          De 15-11-1898 a 15-11-1902 – Manoel Ferraz de Campos Sales- paulista
          De 15-11-1902 a 15-11-1906 - Rodrigues Alves – paulista
          A nossa narrativa está ocorrendo em 1905; portanto, numa época pré-eleitoral,
pois, no ano seguinte, se realizaria a eleição para a escolha do novo presidente,
começando a surgir os prováveis candidatos. O articulista se insurgia contra a candidatura
de Campos Sales, por ele ser paulista, receoso de que, se eleito, viesse descontentar os
demais Estados da Federação, perpetuando paulistas na presidência da República, visto que
os três presidentes anteriores eram paulistas (Prudente de Moraes, Campos Sales e
Rodrigues Alves).
          Como vimos, à época (1905), exercia o cargo de presidente da República o Dr.
Francisco de Paula Rodrigues Alves. O presidente do Estado, que corresponde ao atual
governador do Estado, era Jorge Tibiriçá e o intendente, que corresponde ao atual prefeito
de nossa cidade era Honório de Oliveira Camargo.
          Continuando com a análise do jornal “O Correio do Interior”, ainda na sua
primeira página, traz um artigo de interesse local, sob o título “Jurema”. O artigo não
está completo, pois o tempo e as traças o danificaram, mas do que restou, retiramos os
seguintes tópicos: o artigo trata da cobrança de impostos pelo poder público e a sua má
aplicação. Faz uma análise da receita coletada e das despesas efetuadas pela edilidade,
naquela localidade: “. . . Pagam, pacificamente, impostos municipais, neste distrito,
além dos lavradores de café, alguns dos quais são também cobrados pelo fabrico de
aguardente e de materiais para construção (olarias), dois negociantes de fazenda e
armarinho, nove de secos e molhados, ferragens e louças, dois açougueiros, dois barbeiros,
dois padeiros, duas indústrias com máquina de beneficiar café, um farmacêutico, um
ferreiro, um armeiro, um hoteleiro, um alfaiate, vários oficiais jornaleiros, diversos
proprietários de veículos de aluguel, troly, carros, carroças e mais um negociante de
bebidas, com botequim”. . . . Não será difícil a qualquer curioso avaliar da enormidade do
saldo que este distrito deve ter na contribuição orçamentária. Os seus habitantes são
desconsiderados pelos poderes municipais, aspiram, com justa razão, por melhorias”.
          E completa o articulista: “. . . Não falemos em equidade mas exijamos justiça
na distribuição dos impostos arrecadados com luvas de ferro; peçamos igualdade na
aplicação dos dinheiros de nós recebidos e que nos custaram um sem número de sacrifícios.
De que ordem será a conveniência que determinou a supressão das escolas de São João da
Jurema?”.
          A leitura do artigo nos conduz a algumas conclusões: já em 1905, Jurema era um
bairro com muitas casas e com um comércio razoável, pelos padrões da época. É bom lembrar
que nessa época (1905), a estrada de ferro ainda não tinha atingido a vila de Jurema, que
só veio a ocorrer, em 1908. O jornal pugnava pelos interesses daquela comunidade, exigindo
uma explicação pela supressão das escolas de São João da Jurema e reclamava por melhores
atenções da Câmara. Conclui-se, também, que a localidade era conhecida por São João da
Jurema. Aliás, o padroeiro da atual Jurupema é São João.
          O artigo continua e aborda um outro assunto, que transcrevemos: “... Nada mais
cômodo que desembaraçar-se de credores importunos e inconvenientes, entregando-lhes o
dinheiro destinado à arrancar da mais absoluta ignorância uma centena de menores porque
estes ( referindo-se aos alunos das escolas que foram fechadas em Jurema) nada podem, ao
passo que aqueles ( referindo-se aos credores – os poderosos) brigam, esbravejam e exigem
a solução dos compromissos contraídos lícita ou ilicitamente pela nossa municipalidade. Os
portadores de títulos são poderosos e podem perturbar a tranqüilidade da corporação
(Câmara) e contrariamente, ao contribuinte, assiste apenas o religioso dever, a obrigação
legal de submeter-se, incondicionalmente, a uma quase extorsão a mil exigências e em
recompensa ser-lhe-á votado o mais odioso abandono. E a Câmara preferiu esse caminho a
confessar-se insolvável e reclamar pelos meios legais um acordo que resolvesse os direitos
de todos”.
          A referência no corpo do artigo sobre “os portadores de títulos”, cabe aqui um
esclarecimento: à época, os municípios emitiam títulos e os vendiam ao público, com a
obrigação de resgatá-los dentro de um certo prazo, acrescido dos juros. Os recursos
advindos desses empréstimos, sob a forma de venda de títulos, se destinavam a atender às
necessidades do município. Pela leitura da matéria publicada, conclui-se que o nosso
município havia lançado esses títulos e já estavam vencidos e não haviam sido pagos.
          Como vimos, o jornal tratava da má aplicação dos recursos públicos e reclamava
do descaso da Câmara Municipal e da Municipalidade.
          A título de esclarecimento, ainda sobre a emissão de títulos, o mesmo jornal “O
Correio do Interior”, em sua edição de 3-6-1906, traz a seguinte notícia: “Letras
municipais – foram admitidas à cotação da Bolsa as letras do último empréstimo contraído
pela Câmara Municipal desta vila”.
          Em seguida, o jornal traz duas notícias sobre professores: a primeira diz
que “... os alunos da escola municipal, regida por Francisco Silva, convidou para a festa
escolar que pretendem realizar a 14 do corrente, no edifício da Loja Maçônica Líbero
Badaró desta Vila”.  A segunda notícia é sobre o falecimento do professor normalista João
Meirelles Filho, “. . . que há cinco anos exerceu o magistério público e particular nesta
vila”.  Registra o convite de missa assim redigido: “. . . Segunda feira, dia 10 e meia
horas será celebrada na Matriz, desta vila uma missa de 7º dia por intenção da alma do
professor normalista sr. João Meirelles Filho, encontrado morto no rio Parayba, próximo
da freguesia da Escada, Município de Guararema. Tendo aquele nosso saudoso amigo
exercido, por muito tempo, o magistério nesta vila, convidamos as famílias dos seus ex-
alunos e demais amigos para assistirem ao ato de religião e caridade pelo que nos
confessamos agradecidos. Ribeirãozinho, 7 de julho de 1905”. E seguem-se os seguintes
nomes: Bernardo Soares, Antonio de Castro, Gabriel Archanjo Cavalheiro, Francisco G.
Gonçalves, Gustavo de Moraes, Manoel de Vasconcellos, Domingos de S. Braga, José Carlos
de Negreiros. Certamente, esses nomes eram pessoas de projeção de nossa cidade, tais como
Antonio de Castro que foi o primeiro jornalista a editar um jornal, impresso em nossa
cidade. Antes deste evento, os jornais aqui editados eram impressos em cidades como
Jaboticabal, São Carlos, Araraquara, etc.  A outra personalidade ali citada é Gustavo de
Moraes que era político influente, à época. A nossa homenagem aos dois professores,
Francisco Silva e João Meirelles Filho, que já exerciam o magistério no início do século
e que, certamente, estão relacionados entre os primeiros professores de nossa cidade.
          Outra notícia está relacionada com a “missa fúnebre” , assim redigida: “Foi
celebrada na Matriz desta vila a missa de 7º dia em sufrágio da alma do finado dr. Antonio
F. de Castilho Sobrinho, filho do coronel João Ferreira de Castilho, fazendeiro e político
neste município”.  O coronel João Ferreira de Castilho exerceu o cargo de vereador ,
juntamente com Gustavo de Moraes, outra personalidade citada linhas anteriormente, tiveram
uma participação marcante no episódio do Movimento Monarquista, em 1902 e no episódio da
renúncia do prefeito Joaquim Machado de Faro Rollemberg, em 1908. A nota pitoresca é sobre
o jogo do bicho, que, em 1905, já existia, era organizado, tinha seus defensores e, já
naquela época, enfrentava e desacatava a autoridade policial, como nos relata a notícia,
sob o título “VIVA O BICHO” que transcrevemos: “Refere a “Tribuna Livre” de Casa Branca,
que os jogadores do “bicho”, em sinal de regozijo, por uma ordem de “habeas corpus”
concedida pelo juiz de direito da comarca percorreram numa das noites passadas as ruas da
cidade, soltando foguetes de assobio, vaiando a autoridade policial e desacatando
cavalheiros de distinção social”. Qualquer semelhança com os dias atuais terá sido mera
coincidência.
          Em seguida, o jornal, na coluna “Felicitações” , registra os nomes de dois
aniversariantes: “ante-ontem – 7.7.1905 – o sr. dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves,
presidente da República;  do sr. Carlos Baptista de Magalhães, acreditado banqueiro e
presidente da Diretoria da Estrada de Ferro Araraquara"” O Sr. Carlos Baptista de Magalhães
foi uma das figuras mais importantes da história da Estrada de Ferro Araraquarense; foi o
seu primeiro presidente.  Em 7 de dezembro de 1901, os trilhos da Araraquarense
alcançavam a Vila de Ribeirãozinho.  Um ano mais tarde (1902), eclodia o movimento
monarquista, em nossa cidade, cujo objetivo era restaurar a Monarquia, tendo como um dos
seus chefes Carlos Baptista de Magalhães. Era proprietário de uma vsta extensão de terra
que se estendia por vários municípios.  Em sua homenagem foi dado seu nome a uma estação da
estrada de ferro, que estava encravada dentro do nosso município; partindo de Taquaritinga,
rumo a Araraquara, a primeira estação era Carlos de Magalhães que, com a alteração do
traçado da estrada de ferro, foi desativada.
          De Campinas, chegava a notícia de que, em 2 de julho de 1905, na presença do
presidente da Província, sr. Jorge Tibiriçá, havia sido inaugurado, naquela cidade, um
monumento em homenagem ao maestro e compositor Antonio Carlos Gomes, autor de inúmeras
peças musicais e entre elas destaca-se “O Guarany” . O monumento era representado por uma
estátua de dois metros, fundida em bronze, trabalho do estatuário nacional Rodolpho
Bernardelli.