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Estávamos no início do século XX (1.900). Nas duas décadas anteriores ocorreram grandes transformações no país: em 13-5-1888, a abolição da escravatura e em 15-11-1889, a Proclamação da República, que punha fim ao regime imperial, passando para o sistema republicano. Em 1898, Campos Salles assumiu a presidência da República. O presidente do Estado de São Paulo (que corresponde ao atual goverrnador do Estado) era Bernardino de Campos. O principal produto de exportação era o café. Com a queda dos preços, afetou sobremaneira a classe dominante, os grandes proprietários rurais e por tabela, estavam afetadas as outras atividades, tais como o comércio e a indústria incipiente. O café entra em crise e com ele, os fazendeiros, os Estados e o País. Os fazendeiros estavam insatisfeitos com a política econômica posta em prática pelo Presidente da República, Campos Sales. Visando pressionar o Governo, se insurgem, aliando-se a um movimento que visava restaurar a Monarquia. Aqui em nossa cidade, esse movimento recebeu o apoio de grande parte da população, a ponto de, na madrugada de 23 de agosto, ser implantado o regime monárquico por 24 horas. Passados os efeitos desse movimento político, a cidade voltou ao seu rítmo de crescimento.
MONARQUIA POR UM DIA O objetivo deste trabalho é mostrar aos leitores de hoje um episódio histórico ocorrido em nossa cidade, mas que teve repercussão nacional. O autor consultou livros, jornais da época e outros trabalhos que se encontram relacionados ao final deste artigo, que vai se desenvolver durante algumas semanas, isto é, por algumas edições deste semanário. O autor apreciaria receber novos detalhes, críticas, correções, sugestões sobre este acontecimento histórico.
OS ACONTECIMENTOS No final do seculo 19, já era latente um sentimento nacional, visando substituir o regime monárquico pelo republicano. Com a abolição da escravidão, em 1888, muitos interesses foram contrariados, principalmente daqueles que eram donos de escravos; estes estavam descontentes e se posicionavam contra o regime monárquico vigente, em virtude dos prejuízos que tiveram de suportar. Os defensores de um Brasil republicano ganharam novos aliados, isto é, daqueles que tiveram seus interesses contrariados pela libertação dos escravos. Isto tudo somado, resultou, em 1889, na queda da Monarquia e a consequente instauração da República. Acontece que o regime republicano feriu muitos interesses daqueles que estavam encastelados na Monarquia e que não eram poucos. Com o advento da República, de um momento para outro, se viram privados de muitos privilégios. Perderam o “status” de nobreza e tiveram seus interesses políticos, comerciais e sociais abalados. Começaram, então, a se articular em oposição ao novo regime republicano. Por outro lado, o novo regime, no início, não estava correspondendo às expectativas daquilo tudo que os seus defensores haviam prometido. As reformas econômicas, sociais e políticas não se realizavam na velocidade esperada, causando uma sensação de frustração perante a população. Um grupo de monarquistas, alguns movidos por interesses contrariados, outros eram monarquistas por ideal, somados aos republicanos frustrados e inconformados, planejavam derrubar a República.
PLANEJAMENTO DO MOVIMENTO Os líderes planejaram minuciosamente a conspirata: com dinheiro em caixa, estoque completo de armas, distribuiram atribuições, confabularam estratégias, expediram mensagens cifradas que partiam do Conselho Deliberativo da Revolução, instalado em São Paulo e marcaram a data para depor Campos Sales, que era o Presidente da República (de 15.11.1898 a 15.11.1902} e Bernardino de Campos, que era Presidente (Governador) do Estado de São Paulo (de julho de 1902 a abril de 1904); Campos Sales estava no final de seu mandato, enquanto Bernardino de Campos estava no início do mandato. O Prefeito de Ribeirãozinho era o Coronel da Guarda Nacional Gustavo Augusto de Moraes (de 26.08.1901 a 17.02.1903). O movimento atingiu centenas de municípios, não só de São Paulo, do Rio de Janeiro e outros Estados, embora o movimento com maior expressão ocorreu no Estado de São Paulo. A DATA O movimento deveria eclodir entre 22 e 24 de agosto de 1902. O TRONO Restaurada a Monarquia, seria colocada no trono Dona Isabel, Condessa D’Eu. Princesa Isabel (1846 a 1921) era filha de D.Pedro II e de dona Tereza Cristina. Substituiu o pai em suas ausências. Promulgou a Lei do Ventre Livre, em 1871 e a lei Áurea, em 13 de maio de 1888, acabando com a escravidão no Brasil. Era casada com o Conde D’Eu. OS LÍDERES DO MOVIMENTO O trabalho de aliciamento se desenvolveu não só na Capital Federal - Rio de Janeiro, como na Capital de São Paulo, em outras Capitais, em várias cidades do interior e em várias regiões do País e até nas Forças Armadas. No Rio de Janeiro, contavam com o apoio do Conselheiro Lafayete, do Visconde de Ouro Preto, Andrade Nogueira e muitos outros nomes ilustres. Em São Paulo, à frente do movimento estava Rafael Corrêa da Silva Sobrinho, coadjuvado por Francisco Penaforte Mendes de Almeida e alguns elementos da família Silva Prado. Em Ribeirãozinho, os líderes do movimento eram Joaquim Mateus Corrêa, Leonardo Botelho e João de Toledo Lara. Além dos três líderes citados, tomaram parte no movimento o Coronel Augusto Ferreira de Castilho, Dr. Antonio Ferreira de Castilho, Dr. Eulógio Alves de Matos Pitombo. (Ao final deste trabalho, o leitor encontrará uma relação mais completa de outros nomes, não só de Ribeirãozinho, bem como de outras localidades, que estiveram envolvidos nesse acontecimento.
EM RIBEIRÃOZINHO O movimento eclodiu na noite de 22 para 23 de agosto. Estavam reunidos na praça da Matriz (atual Praça Centenário), aproximadamente dois mil homens armados. Em praça pública a multidão ouviu a proclamação feita pelo Coronel Augusto Ferreira de Castilho, de desobediência da cidade ao Governo Republicano. Entre os diversos oradores, merece registro a participação do médico baiano, Dr. Eulógio Alves de Matos Pitombo, que fez um discurso inflamado, enaltecendo o movimento. Dr. Matos Pitombo era médico em Araraquara, mas clinicava, também, em Ribeirãozinho, e no dia da revolta encontrava-se em nossa cidade.
PLANO DOS REVOLTOSOS Consta que os revoltosos, chefiados por Joaquim Mateus Corrêa, tinham em seus planos “...tomarem café em Ribeirãozinho, almoçar em Araraquara, jantar em Campinas e tomar chá no Palácio do Governo em São Paulo.”
OS PONTOS ESTRATÉGICOS A população, com um misto de espanto e pânico, acompanhava o desenrolar dos acontecimentos, sem saber exatamente o que estava acontecendo e qual o significado e as implicações daquele movimento. Os rebeldes se apoderaram dos pontos estratégicos da vila: do edifício da Câmara Municipal, onde funcionava não só a Câmara (Poder Legislativo), mas também a Chefia do Governo Municipal, isto é, a Prefeitura (Poder Executivo), local onde seria empossada a Junta Governativa Revolucionária. Naquela época, a população elegia os vereadores para compor a Câmara Municipal; os vereadores escolhiam, entre os pares, um que exercia o cargo de Prefeito. A Prefeitura funcionava no mesmo prédio da Câmara Municipal. A Prefeitura era quase que um apêndice da Câmara. A Câmara tinha um poder quase que absoluto sobre a Prefeitura; em outras palavras, a Câmara se sobrepunha à Prefeitura. Outro local visado pelos revolucionários era a Cadeia Pública, por representar o poder de polícia e também o local destinado a aprisionar os insurretos, os adversários e os funcionários que se recusassem a acatar as ordens revolucionárias. Outro local estratégico era a estação ferroviária, onde se encontravam o telégrafo e o trem, que se constituíam nos dois meios rápidos e seguros de transporte -- o trem -- e de comunicação -- o telégrafo --.
ACLAMAÇÃO E HASTEAMENTO DA BANDEIRA O movimento rebelde aclamou e nomeou uma junta provisória para governar a vila, composta de três revolucionários: -- Joaquim Mateus Corrêa, -- Leonardo Botelho e -- João de Toledo Lara. Joaquim Mateus Corrêa hasteou no mastro principal da Câmara, a bandeira imperial, que lá tremulou por vinte e quatro horas.
MANCHETE DA IMPRENSA No dia 23 de agosto de 1902, os jornais de São Paulo anunciavam em grandes manchetes: “PROCLAMADA A MONARQUIA EM RIBEIRÃOZINHO’. As emoções do público eram as mais variadas possíveis, pois alguns riam, zombavam; outros sentenciavam ser muito séria a situação.
COMBOIO COM DESTINO A ARARAQUARA Os revolucionários preparavam um comboio, com aproximadamente quatrocentos participantes, todos armados, que iriam se juntar com outros, vindos de outras cidades e que seguiriam para a Capital. Mas, houve traições. A conspiração foi denunciada e o Governo republicano tomou enérgicas medidas e preparou uma ofensiva, a fim de sufocar o movimento. Soldados vindos de outras cidades e da Capital chegaram com forças repressivas.
O MENSAGEIRO Em vista do fracasso iminente, por causa das denúncias, o cabeça do movimento em São Paulo, Dr. Rafael Corrêa da Silva Sobrinho, enviou um mensageiro, Barnabé da Costa Corrêa (que era primo de Rafael) a Ribeirãozinho, com a missão de avisar seu irmão, Joaquim Mateus Corrêa (um dos líderes do movimento nesta Vila), para suspender a deflagração do movimento. Mas, a notícia chegou tarde; o movimento já estava em marcha. Sobre a pessoa do Mensageiro, cabe um registro especial: no início de nosso trabalho, coloquei que apreciaria receber novos detalhes, críticas, correções, sugestões. Tivemos a felicidade de ser apresentado ao Professor Dr. Paulo Henrique da Rocha Corrêa, que nos forneceu um dado importante, e que mereceu de nossa parte uma correção no texto original, em especial neste episódio do Mensageiro. Dr. Paulo Henrique é filho de Barnabé da Costa Corrêa, que foi o Mensageiro. Em correspondência que me foi encaminhada por Dr. Paulo Henrique, esclarece o fato de haver sido escolhido seu pai como Mensageiro para a não deflagração da Revolução do Ribeirãozinho e que decorreu basicamente de três fatores: I) ser monarquista convicto; II) ser parente e pessoa de confiança dos líderes do movimento, Dr, Rafael Corrêa da Silva Sobrinho e de Joaquim Mateus Corrêa; III) talvez a mais importante das razões tenha sido de que Barnabé era comprador de café do Senador Procópio de Carvalho, proprietário de uma Casa Comissária de Café, em Santos (SP), na região entre Rio Claro, Corumbatai, Araraquara, incluindo-se aqui Ribeirãozinho e assim passaria muito bem como comprador de café e não como mensageiro dos revolucionários. À época, Barnabé morava em Santa Rita do Passa Quatro. Barnabé era natural de Araraquara, onde nasceu aos 11 de junhode 1869. OS REVOLUCIONÁRIOS DERROTADOS Derrotados, os revolucionários safaram-se como puderam. Mas, nem todos os revoltosos fugiram. Muitos foram presos e processados. Reunidos, inicialmente, em Araraquara, foram depois remetidos a São Paulo e posteriormente ao Rio de Janeiro, onde aguardaram o julgamento, numa fortaleza. Corria, na boca do povo, que seriam perseguidos pelo temido Tenente Galinha -- João Antonio de Oliveira.
PESQUISA NO MUSEU HISTÓRICO DE JABOTICABAL Através de pesquisa feita no Museu Histórico de Jaboticabal, localizamos no jornal “ATALAIA”, edição de 31 de agosto de 1902 (portanto, oito dias após os acontecimentos, que ocorreram entre 22 e 23 de agosto do referido ano de 1902), uma matéria que reproduz um artigo publicado no jornal “O POPULAR”, este editado em Araraquara, sob o título “OS SUCESSOS DE RIBEIRÃOZINHO -- GRAVES ACONTECIMENTOS CONSPIRATÓRIOS”, do qual transcrevemos o seguinte: “No dia 23 do corrente (agosto de 1902), a população de Araraquara foi surpreendida por uma notícia de que uma revolução havia sido deflagrada em Ribeirãozinho, e que os revolucionários, de posse da Estrada de Ferro Araraquara, preparavam-se para invadir Araraquara. Preparavam um comboio especial, com mais de quatrocentos homens armados, para levar reforços à cidade de Araraquara. O pânico se espalhou por entre a população, visto que os comentários eram os mais contraditórios e corriam por toda parte. Ao saber disso, o Major Pena, Delegado de Polícia, em Araraquara, foi imediatamente conferenciar com o Juiz de Direito da Comarca, Dr. Flávio de Queiroz. Em conjunto, essas autoridades enviaram telegrama para São Paulo, comunicando o fato. No âmbito local, tomaram todas as providências para impedir a propalação da invasão daquela cidade (Araraquara).
REQUISIÇÃO DE ARMAS E continua o artigo do citado jornal: “Entre as medidas tomadas, uma delas foi a requisição de todas as armas existentes nas casas de comércio, que vendiam esses objetos. A requisição foi feita a pedido e sob a responsabilidade da Câmara Municipal. Foram enviados emissários em pontos estratégicos, com o objetivo de vigiar e informar as autoridades sobre a chegada de eventuais suspeitos e reunir elementos de resistência.”
A RESISTÊNCIA E mais: “...às três horas da tarde, do dia 23, já se encontravam reunidos mais de trezentos homens, prontos e armados, que foram distribuídos para diversos pontos, sendo o principal deles a Chácara Xavier, onde deveriam desembarcar os revoltosos. Estavam as coisas nesse pé, quando inesperadamente desembarcaram pela composição férrea, conhecida por “EXPRESSO”, vinte e quatro soldados, vindos de São Paulo e de São Carlos. Grande foi o contentamento da população ao ver desembarcar esse contingente de Praças, tal era o pânico que estava tomada. Logo em seguida, Dr. Flávio de Queiroz, Juiz de Direito e Major Pena, Delegado de Polícia, receberam telegrama, informando que estava sendo enviado para aquela cidade (Araraquara), forte contingente, chefiado pelo Delegado Auxiliar de São Paulo, Dr. Vitor Airosa. Independente dessas providências, as autoridades locais continuavam atentas. Via-se a todo instante passar grupos de paisanos que iam se aquartelar nos prédios da Câmara e da Cadeia daquela cidade (Araraquara). Era grande o entusiasmo pela defesa das instituições republicanas, ouvindo-se aqui e ali, a todo instante, vivas à República e ao Governo.”
DEBANDADA DOS REVOLTOSOS E prossegue o jornal: “... às nove horas da noite, o Juiz de Direito foi procurado pelo Chefe do Tráfego da Estrada de Ferro de Araraquara, comunicando a debandada das forças revoltosas de Ribeirãozinho, atendendo ao aviso feito pelas autoridades de Araraquara, dando ciência de que forte resistência havia sido armada.”
CHEGADA DAS FORÇAS CONTRA-REVOLUCIONÁRIAS E termina o relato desta forma: “Acalmados os ânimos e amainado o pânico, grande massa popular se dirigiu à Estação da Paulista, em Araraquara, e aí ficou aguardando a composição que trazia grande contingente de soldados. A plataforma estava repleta de pessoas. Às dez horas da noite, no meio de aclamações, discursos e vivas de entusiasmo, ouviu-se o apito da locomotiva. Desembarcaram o Delegado Auxiliar, Dr. Vitor Airosa, o Escrivão, Dr. Teodósio de Carvalho e muitos oficiais da Força Pública. Todos foram entusiasticamente recebidos, com aplausos e muitos vivas à República, ao Dr. Bernardino de Campos, Governador do Estado e ao Dr.Campos Sales, Presidente da República”.
REAÇÃO DO GOVERNO A um político de Jaboticabal, então sede da Comarca de Ribeirãozinho, foi enviado um telegrama com os seguintes dizeres: “---Não poupem dinheiro e ... nem balas”. Felizmente, não foi disparado um único tiro contra os revoltosos. Ribeirãozinho foi tomada, deposto o seu Delegado e ocupada a Estação ferroviária e enviado um telegrama a São Paulo, dando conta do seguinte: “---Ribeirãozinho tomada, dois mil homens em armas, grande entusiasmo”. Achamos exagerado o número de homens armados, mas é o que consta na mensagem.
RAMIFICAÇÕES DO MOVIMENTO O movimento tinha ramificações por diversas cidades, comprovadas através de comunicações que a junta revolucionária dirigiu a Jaú, em nome de Álvaro Botelho; para Campinas, em nome de José França; a Rio Claro, para João Aranha e em Santa Ernestina, a um tal de Geraldo.
OUTRA CIDADE QUE ADERIU Telegramas anunciaram o levante de mais uma cidade: Espírito Santo do Pinhal. As duas cidades ocupadas pelos revolucionários --Ribeirãozinho e Espírito Santo do Pinhal -- foram as únicas que tiveram, efetivamente, um movimento popular contra a República e em favor do regime monárquico. Nas duas cidades, ocupadas pelos revolucionários, as diversas manifestações que se sucederam, não deixaram dúvidas quanto ao fato de que se tratava realmente de um movimento restaurador: discursos inflamados, proclamações, gritos de “...Morra a República e ...Viva a Monarquia”. Embora os depoimentos de várias testemunhas asseguravam igualmente o envolvimento de membros da dissidência do partido político PRP -- Partido Republicano Paulista --, que dava apoio ao governo republicano. Enérgicas medidas foram postas em prática pelo Governo do Estado contra as duas cidades rebeldes.
MEDIDAS REPRESSIVAS O jornal “O Estado de São Paulo”, em 25 de agosto de 1902, noticiava que graves distúrbios haviam ocorrido em Franca, Araras, Mogi Mirim, Araraquara, São Carlos do Pinhal, Casa Branca, Ribeirãozinho, Espírito Santo do Pinhal e em outras localidades. O Chefe de Polícia de São Paulo, José Cardoso de Almeida, tomava medidas repressivas: “no dia 23 de agosto, foi enviado a Araraquara e Ribeirãozinho um contingente da Fôrça Pública, juntamente com o Segundo Delegado Auxiliar Vitor Ayrosa; no dia 24 de agosto, foi enviado um batalhão, acompanhado do Primeiro Delegado Auxiliar José Roberto Leite Penteado, com destino a Espírito Santo do Pinhal. Como resultado dessas providências, os revoltosos foram dominados.
ESTAÇÃO DE ITAQUERÊ Consta que as forças revoltosas chegaram até a estacção de Itaquerê (atual Bueno de Andrade), próxima da cidade de Araraquara, mas receosas, não chegaram a entrar. Fortes contingentes foram deslocados para Matão e Ribeirãozinho.
BATALHA JURÍDICA Travou-se uma longa batalha jurídica. Os envolvidos foram presos; foram instaurados inquéritos; de um lado, o Governo através do Procurador da República, apresentou denúncia contra os implicados no movimento restaurador; de outro lado, ordens de “habeas corpus” foram impetradas em favor dos envolvidos, perante o Supremo Tribunal Federal. Muitos dos implicados ficaram presos e até foram transferidos para uma fortaleza, até o julgamento.
OBJETOS APREENDIDOS EM RIBEIRÃOZINHO De acordo com notícia inserida no jornal “Correio Paulistano”, que circulava na Capital-São Paulo, de dois de setembro de 1902 (dez dias após o movimento), consta que, entre os objetos apreendidos, destacava-se uma moringa de barro, com as Armas da República esculpida em seu bojo. Essa moringa tem uma história cômica: quando as forças monárquicas se apoderaram do edifício da Câmara, a primeira coisa que fizeram foi colocar abaixo a moringa que lá existia, ostentando ostensivamente as Armas da República, trocando-a por um vaso estilo sebastianista, símbolo da Monarquia, que haviam premeditadamente adquirido para o ato solene da substituição. Outro objeto que foi apreendido era uma espada relampejante, que um dos chefes da revolução, o Coronel da Guarda Nacional, Augusto Ferreira de Castilho portava na madrugada do dia 23 de agosto e que a deixou ao fugir com os seus companheiros. Os dois objetos acima mencionados são os mesmos relatados no ítem “NOTAS PITORESCAS”; a espada que o Coronel Augusto Ferreira de Castilho, quando percorria as ruas da Vila, vestindo sua farda imponente da Guarda Nacional, dizendo em tom de vitorioso: “Hoje é dia em que farei valer a espada da Monarquia”. A moringa é aquela que, ao entrar no recinto da Câmara Municipal, o Coronel, num rasgo de bravura, decepou-lhe o pescoço, sem romper a parte bojuda, ao mesmo tempo que gritava: “---Alto lá !!! Em pleno regime monárquico, uma moringa republicana??”.
DOLOROSO EPISÓDIO O fazendeiro Gabino Honório de Sampaio, acompanhado de seis capangas, no dia 22 de agosto de 1902, foram até a fazenda da Viúva Francisca Honória da Silva, sua tia e começaram a guascar seus colonos, com o objetivo de amedrontá-los para junto do movimento revolucionário. O colono Angelino Andreoti, amedrontado, pôs-se em fuga. O fazendeiro Gabino ordenou aos seus capangas que fizessem fogo contra o colono. Um dos capangas, de nome Artur de Tal, fêz um disparo, matando o colono. Os outros colonos, coagidos e amedrontados seguiram os revolucionários. O assassinato do colono Andreoti foi o episódio triste do movimento, em Ribeirãozinho. Portanto, a única vítima de morte foi a do colono italiano Ângelo Andreotti, que foi fuzilado, ao fugir do recrutamento forçado que os fazendeiros impunham aos seus colonos. JUNTA REVOLUCIONÁRIA DE RIBEIRÃOZINHO A Junta Revolucionária de Ribeirãozinho estava assim constituída: --- Comandante - Joaquim Mateus Corrêa; Chefe do Movimento - João de Toledo Lara; a Junta era complementada por Leonardo Botelho. Joaquim Mateus Corrêa era fazendeiro, aqui na região de Jaboticabal; foi um dos fundadores da cidade de Guariba; era irmão de Rafael Corrêa da Silva Sobrinho; este último era o lider do movimento na Capital-São Paulo; foi também um dos fundadores da cidade de Guariba, aos 21 de setembro de 1895. Outras pessoas faziam parte do movimento monarquista de Ribeirãozinho: Dr.Antonio Ferreira de Castilho; Coronel da Guarda Nacional Augusto Ferreira de Castilho Dr. Eulógio Alves de Matos Pitombo, era médico Manoel Augusto de Alvarenga; este era cunhado de Joaquim Mateus Corrêa e de Rafael Corrêa da Silva Sobrinho; Manoel Augusto tinha uma propriedade rural nas proximidades de Ribeirãozinho, adquirida, provavelmente, por herança de seu sogro, Capitão Francisco de Paula Corrêa e Silva; Major Pedro Paulo Corrêa; era vereador e exercia o cargo de Presidente da Câmara Municipal, à época Antonio Ferreira Leite Amaro Leite Jacinto Soares Fagundes Laurentino de Tal e em geral todas as autoridades locais. Os Castilho acima citados -- Dr. Antonio e Coronel Augusto -- faziam parte da família dos Capa Preta, que mantém descendentes, até hoje, em nossa cidade -- Ariosto Castilho--, que reside à rua Visconde do Rio Branco. Consta às páginas oito do livro “À época do movimento, o Prefeito era o Coronel da Guarda Nacional, Gustavo Augusto de Moraes, Guarda demais vereadores eram Sebastião Moreira da Silva, José Domingues de Camargo, Bernardino Inocêncio Amaral e Félix Onório de Sampaio. Não consta que estes vereadores tivessem participado do movimento.
Faremos um resumo do capítulo do livro “Os subversivos da República”, de autoria de Maria de Lourdes Mônaco Janotti, que trata do movimento restaurador.
OS ANTECEDENTES DO MOVIMENTO Em 1900, um golpe militar fracassou; em 1901, uma cisão do Partido Republicano Paulista dá origem ao Partido Dissidente de São Paulo, apoiado por Prudente de Moraes e Júlio Mesquita (este político e um dos proprietários do jornal “O Estado de São Paulo”). Ainda em 1901, embasado numa ação judicial, foi reaberto a 10 de agosto (de 1901), o Clube Militar, que havia sido fechado pelo Governo. Na sua primeira sessão, participou a Associação dos Empregados no Comércio, exemplo sintomático de que os militares buscavam a aproximação e o apoio das classes populares. Após a abertura do Clube Militar, houve intensa atividade de alguns de seus membros no sentido de envolver políticos influentes na campanha eleitoral contra a candidatura oficial de Rodrigues Alves. Altas patentes do Exército e da Marinha, acompanhados de alguns políticos, procuraram Prudente de Moraes (político influente e que havia sido o primeiro civil a ocupar a Presidência da República) e o convidam a participar de um movimento contra Campos Salles. Segundo consta, Prudente de Moraes não aderiu, pelo menos declaradamente. Por outro lado, os alunos da Escola Militar, em agosto de 1902, pretendiam aprisionar o Presidente da República, Campos Salles. O ano de 1902 foi um período de intensas atividades políticas. Realizaram-se eleições: Rodrigues Alves foi eleito Presidente da República, tendo recebido 592.039 votos. À época, a população do Brasil era de aproximadamente 18 milhões de habitantes; conclui-se que o Presidente foi eleito por apenas 3,3% dos votos da população. Rodrigues Alves assumiu em 15-11-1902 e governou até 15-11-1906. O ano de 1902, foi também um ano de grandes dificuldades econômicas; o café, principal produto de exportação, entra em crise e com ele os fazendeiros, o Estado e o País, pois esse produto era o principal sustentáculo da jovem República, como fôra também do Império.
ALIANÇA DE VÁRIAS TENDÊNCIAS Os dissidentes republicanos paulistas se unem aos monarquistas e aos militares e diante do descontentamento das elites, tentam obter o apoio das classes populares e comerciais. O movimento restaurador foi, na verdade, o resultado de uma aliança de várias tendências que, desgostosas com a situação política e econômica, se unem numa frente única, para tentar derrubar o Governo Federal de Campos Salles e o Governo Estadual de Bernardino de Campos.
OS FAZENDEIROS DE CAFÉ Os fazendeiros estavam descontentes com a política do governo central e se organizavam em Clubes da Lavoura, espalhados pôr diversas regiões produtoras de café e lançavam seus protestos. Na região de Avaré,São Manoel, Botucatu cresciam as manifestações dos fazendeiros, apresentando reclamações contra a Companhia de Estrada de Ferro União Sorocabana e Ituana, cujo principal acionista era o Governo, que não atendia os fazendeiros no transporte do principal produto da região, que era o café. As reclamações tinham pôr base o tráfego irregular da Companhia Sorocabana. Os fazendeiros eram forçados a transportar o café em carroções, em lombos de burros, em cargueiros, até a Estrada de Ferro Paulista, tendo que percorrer longas distâncias. Cerca de 500 carroças, 100 carros de bois e muitos lotes de burros transitavam, sem parar, dia e noite, transportando café da região da Sorocabana para a linha da Paulista, com destino ao porto de Santos.
A MÃO ARMADA DO MOVIMENTO Embora civis e militares republicanos conspirassem a nível nacional, o movimento foi predominantemente monarquista e paulista. Circunscreveu-se a algumas cidades do interior do Estado de São Paulo e à localidade de Jacarezinho, no Paraná. Os principais implicados eram fazendeiros influentes, ligados aos chefes monarquistas estaduais e membros das oposições municipais e dissidentes do Partido Republicano Paulista (PRP). O coronelismo comandava a política dos municípios. Os poderosos fazendeiros continuavam a ser monarquistas, mesmo após a instauração da República, em 1889. Esses fazendeiros não perderam suas bases de influência e continuaram a participar da política como chefes de facções locais. Em decorrência dessa situação é que se explica terem sido os fazendeiros a mão armada do movimento de 1902.
EM SÃO PAULO - CAPITAL O movimento obedeceu a um plano político. Eram enviados agentes de São Paulo, onde funcionava o Conselho Deliberativo do Movimento, para traçar planos de ação junto aos revoltosos. Como articulador principal dos monarquistas estava Rafael Corrêa da Silva Sobrinho, que era professor da Faculdade de Direito de São Paulo e ex-secretário do Partido Monarquista de São Paulo, secundado em suas atividades pôr Francisco Penaforte Mendes de Almeida, que também era professor da mesma Faculdade.
OS CONTATOS ENTRE OS REVOLTOSOS Rafael Corrêa da Silva Sobrinho manteve contatos com Francisco de Godoy Bueno, morador em Araras (SP), recomendando que os monarquistas se preparassem para participar da revolução, que se instauraria a 22 de agosto. Manteve contatos, também, com Joaquim Mateus Corrêa, seu irmão e com doutor Alavarenga, seu cunhado, que eram fazendeiros na região de Ribeirãozinho. Contatou, também, Lourenço Corrêa, seu tio, de Araraquara. Os nomes citados eram de pessoas, todas seus parentes, que se tratavam de homens de fortuna e monarquistas. No mês de julho, que antecedeu o movimento, Rafael Corrêa da Silva Sobrinho dirigiu-se a Espírito Santo do Pinhal, acompanhado de seu colega de Faculdade, Francisco Penaforte Mendes de Almeida, onde manteve reuniões com os chefes monarquistas locais: Dr. João Evangelista Pedreira de Cerqueira, Dr. João Sertório, Dr. Carolino Ferreira Garcia, genro do Barão de Mota Paes e Armando Soares de Abreu Caiuby (este último, foi designado delegado de polícia e chefe do governo da cidade, pôr ocasião da deflagração do movimento.
O SINAL PARA O INÍCIO DO MOVIMENTO Ficou acertado entre os conspiradores que as manifestações promovidas na Linha Sorocabana deveriam ser o sinal para o início do movimento. E a partir dessas manifestações, todos tomariam providências, arregimentando homens, estocando armas e munições e armazenando alimentos.
ESTAÇÃO TELEGRÁFICA Em Araraquara, Carlos Baptista de Magalhães, que era presidente da Estrada de Ferro Araraquara, instalou, quinze dias antes do início da revolução, uma estação telegráfica reservada, em ponto isolado, para uso exclusivo do movimento.
Prisão e interrogatório Sufocado o movimento, os implicados foram levados para São Paulo e várias personalidades, principalmente, monarquistas da Capital foram intimadas a depor. Seguiram-se os interrogatórios dos implicados, sob o comando do Chefe de Polícia da Capital.
Inquérito policial O Relatório do Chefe de Polícia, José Cardoso de Almeida, apresentando a versão oficial dos fatos, concluiu que a intenção dos revoltosos era a deposição do Governo do Estado e da República, sendo convocada uma Constituinte, que resolveria sobre a formação do governo, se desde logo não fosse restaurada a Monarquia. Consta , ainda, do relatório que, no Rio de Janeiro, o movimento teria como chefes o Conselheiro Lafayette e o Senador Lauro Sodré, que iriam fazer parte do Governo Provisório que seria aclamado; consta que participaria também do movimento o Visconde de Ouro Preto. Nesse relatório do Chefe de Polícia de São Paulo, Dr. José Cardoso de Almeida, encaminhado ao Secretário do Interior e Justiça, encontra-se transcrito o inquérito policial elaborado pelos delegados Dr. José Roberto Leite Penteado e Victor Ayrosa, 1º e 2º delegados auxiliares. Dr. José Roberto foi encarregado da repressão aos revoltosos na região de Espírito Santo do Pinhal, enquanto Dr. Victor Ayrosa ficou encarregado da região de Araraquara e Ribeirãozinho. O relatório inicia a sua exposição informando que “. . .no dia 22 (de agosto de 1902) tinham sido expedidos da Vila de Ribeirãozinho telegramas avisando que aquela povoação seria invadida por mais de 2.000 homens armados e municiados, que tendo intuitos políticos apoderar-se-iam da Câmara e da Cadeia”. Os telegramas, na época, eram transmitidos via telégrafo, instalado na estação da estrada de ferro. Acontece que esses telegramas ficaram retidos na estação da estrada de ferro, em Araraquara, por determinação de Carlos Baptista de Magalhães, que fazia parte do movimento monarquista e exercia o cargo de presidente da EFA. O objetivo da retenção desses telegramas era impedir que chegassem ao seu destino que era o Chefe de Polícia, em São Paulo. Esses telegramas só chegaram a São Paulo no dia seguinte, isto é, 23 de agosto, “. . . sendo imediatamente determinada a partida de uma autoridade (Delegado Victor Ayrosa) para sindicar (apurar) dos fatos, acompanhada de força policial para manter a ordem”. Qual era o objetivo desse movimento ? segundo consta do inquérito policial “... um plano revolucionário tinha sido aventado, tendo por fim, de momento, a deposição do Governo do Estado e da República, sendo convocada uma Constituinte, que resolveria a formação do Governo, se desde logo não fosse restaurada a monarquia”. Portanto, os revoltosos obedeciam a um plano geral de um movimento que devia se estender por todo o Estado, visando a deposição do chefe da Nação e consequente aclamação de um governo provisório que, caso não julgasse oportuno declarar, desde logo, restaurada a monarquia, convocaria uma constituinte que, por sua vez, consultaria o País a respeito da forma do governo. Para o bom êxito do movimento “os revolucionários contavam com fortes elementos em Araraquara e Ribeirãozinho, homens de fortuna e convictos monarquistas prontos a agirem para a restauração da monarquia”. Quem era o chefe (o cabeça) aqui em Ribeirãozinho foram encarregados de coordenar Joaquim Matheus Corrêa e Dr. Alvarenga, parentes próximos do Dr. Raphael Corrêa da Silva, que era considerado o chefe de todo o movimento no Estado de São Paulo. Dr. Raphael era professor da Faculdade de Direito de São Paulo. Em que momento se deflagaria o movimento ? durante os dias que antecederam o movimento, boatos eram passados à população, insuflando-a sobre os atos do Governo da República (Campos Sales era o presidente da República). Concomitantemente, na Estrada de Ferro Sorocabana ocorriam manifestações por parte da população, principalmente, pelos fazendeiros e comerciantes, insatisfeitos com os serviços que eram prestados por aquela companhia. A crise de transporte na Sorocabana seria um dos motivos para o movimento e o sinal para os revoltosos iniciarem a revolução era a deflagração de desordens que deveriam ocorrer naquela região. Qual era a data ? foi designada a noite de 22 de agosto e madrugada de 23, para se declarar o movimento em todo o Estado. ".“. . Assim combinado o plano, a Vila de Ribeirãozinho, diretamente ligada `Cidade de Araraquara, pela linha da Comanhia Estrada de Ferro de Araraquara, pela madrugada de 23 de agosto foi invadida por mais de duas mil pessoas armadas e municiadas, que tomaram a Estação da Estrada de Ferro, impedindo a partida dos trens. Os revoltosos, em seguida, depuseram o Delegado de Polícia e se reuniram no Largo da Matriz. Ali ocorreram manifestações e discursos: entre os participantes do movimento, Dr. Augusto de Castilho, depois de violento discurso, indicou que fosse aclamado um Governo Provisório, composto dos revoltosos Joaquim Matheus Corrêa, Leonardo Botelho e João de Toledo Lara, o que foi aceito, falando em seguida o doutor Eulógio Alves de Mattos Pitombo, que nessa ocasião incitou o povo a prosseguir na sua luta. Este Governo Provisório, assim que foi aclamado, reuniu-se no edifício da Câmara, onde foi empossado, passando em seguida a exercer suas funções”. Delegado de Polícia e Comandante das forças revoltosas – Para Delegado de Polícia foi nomeado Thomaz Sebastião de Mendonça e para Comandante das forças revoltosas o coronel Gustavo Augusto de Moraes. Gustavo Augusto de Moraes teve papel proeminente no movimento. Dois dias antes, ele organizou as forças, fazendo recrutamento nas fazendas, aliciando capangas, apreendendo armas, formando grupos armados. Participou, também, da organização das forças armadas o capitão Florentino Antonio Clemente, “. . .que fardou-se, pondo nos braços os galões do posto que ocupava”.
Tomada da vila – Tomada a vila de Ribeirãozinho e os revoltosos julgando que o movimento fosse vitorioso em todo o Estado, enviaram telegramas de congratulações aos “cabeças” do movimento, nas diversas cidades, inclusive para a redação dos jornais “Do Commercio” e “O Estado de São Paulo” que eram simpatizantes do movimento. Telegramas retidos – As autoridades constituídas, ao tomarem conhecimento do aliciamento de pessoas e armas por parte dos revoltosos visando a tomada da vila, enviaram telegramas às autoridades localizadas na Capital. Entretanto, esses telegramas foram interceptados e retidos, isto é, as mensagens não seguiram para a Capital. Esses telegramas foram retidos por ordem de Carlos Baptista de Magalhães, um dos líderes do movimento revoltoso e que exercia o cargo de presidente da Estrada de Ferro Araraquara. A retenção dessas mensagens tinha por objetivo facilitar a tomada de Araraquara pelos revoltosos, dificultando o envio de força policial pelas autoridades constituídas. Telegrama com a mensagem “não venha” – Após a tomada da Vila de Ribeirãozinho, pelos revoltosos, o objetivo seguinte era a tomada da cidade de Araraquara. O ponto de encontro das forças revoltosas era na estação de Itaqueri, onde deviam aguardar ordens. Antonio Lourenço Corrêa, um dos líderes do movimento em Araraquara, onde também exercia o cargo de Diretor da Estrada de Ferro Araraquara, comunicou-se com Joaquim Matheus Corrêa, este um dos líderes do movimento em Ribeirãozinho, solicitando a vinda dos revoltosos, que deveriam embarcar à tarde do dia 23. Joaquim Matheus Corrêa mandou que fossem preparados dois comboios e duas máquinas, onde deviam seguir mais de quinhentas pessoas. Quando os revoltosos de Ribeirãozinho já se achavam na estação a espera de embarcar para seguirem para Araraquara, com uma banda de música, chegou um telegrama de Antonio Lourenço Corrêa, dirigido a Joaquim Matheus Corrêa com as palavras “NÃO VENHA” e logo em seguida com o intervalo de dez minutos, do mesmo Lourenço Corrêa uma outra mensagem, dizendo que havia saído de São Paulo, uma força de quatrocentas praças, em trem especial. Ordem de regressar – As forças revoltosas que estavam acampadas na Estação de Itaqueri receberam ordens para regressar, visto que, com a chegada das forças legalistas, não seria possível tomar Araraquara. O inquérito policial concluiu que os revoltosos, ao tomarem conhecimento que “... uma autoridade policial acompanhada de força, seguia em direção à Vila de Ribeirãozinho, a fim de restabelecer a ordem, os revoltosos abandonaram a cidade, deixando de prosseguir no plano revolucionário, por circunstâncias independentes de sua vontade”. Enquadramento jurídico dos implicados – O inquérito policial continua: “... Pelos inquéritos feitos está provado que um plano revolucionário estava preparado com repercussão em todo o Estado e fora e que os revoltosos tentaram diretamente, por meios violentos mudar a forma de Governo estabelecida pela Constituição da República, incidindo assim na sanção do artigo 107 do Código Penal: “Tentar diretamente e por fatos mudar por meios violentos a Constituição política da República ou forma de Governo estabelecida”. Os indiciados – Do inquérito policial constou como indiciados: Dr. Raphael Corrêa da Silva que “encontrou no Pinhal o plano de conspiração, preparou elementos em Araras e em Araraquara, por intermédio de seus parentes, principais figuras no movimento, bem como em Ribeirãozinho, por parte dos revoltosos responsáveis pelos fatos apurados, pelo que representamos ao Dr. Juiz Federal, sobre a conveniência de ser decretada a sua prisão preventiva”. Carlos Baptista de Magalhães – “. . .convém ponderar, a cerca do papel saliente que tomou no movimento, como Presidente da Companhia de Estrada de Ferro de Araraquara, estabeleceu quinze dias antes da revolução, uma estação telegráfica reservada, em ponto isolado, a quasi um kilômetro da cidade, para uso exclusivo da revolução ou de receber notícias repetidas do que se passava em Ribeirãozinho e em outros pontos da linha e à proporção que as recebia, ia pressuroso comunicá-las ao Dr. Rodrigo Lobato” Antonio Lourenço Corrêa – Diretor Secretário da mesma Companhia Joaquim Matheus Corrêa, irmão do Dr. Raphael Corrêa Leonardo Botelho, João Toledo Lara, Dr. Augusto de Castilho, coronel João Ferreira de Castilho, Felix da Silva Leite, Dr. Eulógio da Silva Mattos Pitombo, Thomaz Sebastião de Mendonça, Fausto Ismael Pereira e Souza, Gustavo Augusto de Moraes, Gabino Horácio (Honório) de Sampaio (também responsável pelo assassinato do colono Ângelo Andreotti que fugia para não ser recrutado pelas forças dos revoltosos), Jacintho Soares Fagundes, Francisco Bento do Nascimento, Dr. Manoel Augusto de Alvarenga, cunhado do Dr. Raphael Corrêa, Justino Corrêa de Freitas, Carlos Leôncio de Magalhães (filho de Carlos Baptista de Magalhães), Leão Pio de Freitas, capitão Florentino Antonio Leite, filho de Felix da Silva Leite, Pedro Corrêa, Vicente Corrêa, Osório Pereira de Souza, de Ribeirãozinho e Araraquara. Confrontação entre órgãos de imprensa Os interrogatórios foram acompanhados pela imprensa e serviram como pretexto para a confrontação entre grupos políticos: pelo lado do governo, o jornal “Correio Paulistano”, que era órgão ligado ao partido político PRP (Partido Republicano Paulista), que apoiava o governador Bernardino de Campos. Outro jornal que apoiava o governo era “A Platéia”. Estes dois jornais se opunham a “O Comércio de São Paulo”, a “O Estado de São Paulo” e a “O Tempo”, este último, órgão da dissidência. Na época, houve uma “guerra” entre esses dois blocos de órgãos de imprensa: um apoiava os revoltosos e o outro, o governo. Travou-se, então, uma polêmica que ficou conhecida como a “revolução dos telegramas”: de um lado, “O Estado de São Paulo”, que apoiava a dissidência paulista e se aliava aos restauradores monarquistas, estampava telegramas provenientes do interior, dando conta do aumento da área conflagrada; já o “Correio Paulistano”, que era um órgão do partido político PRP, cuidava de desmenti-los. Esses dois jornais travaram um confronto: o jornal “O Estado de São Paulo”, que era dirigido pôr Júlio de Mesquita, em 1896, combateu os monarquistas, pois defendia a causa republicana. Já, em 1902, o jornal e seu diretor passaram a atacar os republicanos, isto é, passaram a fazer parte da dissidência paulista, aliando-se aos monarquistas. Já, o jornal “Correio Paulistano”, órgão do Partido Republicano Paulista, que era governista, explorou essa dualidade de posição do seu opositor: primeiro, porque havia combatido a Monarquia, defendendo a República; agora (1902), aliou-se aos monarquistas e passou a atacar os republicanos.
A Denúncia Em 15 de setembro, o Procurador da República, Bernardo de Campos, apresentou ao Juiz Federal denúncia contra 27 pessoas de Ribeirãozinho e Matão, 40 de Espírito Santo do Pinhal, 11 de Araraquara, 8 de Araras, 4 de Mogi-Mirim, 2 de Boa Vista das Pedras (atual Itápolis), 2 de São Carlos do Pinhal, 1 de Rio Claro e 2 da Capital. No relato do Procurador manifestava-se a nítida convicção de que o movimento tinha sido arquitetado pelos restauradores: “...Nessas reuniões, planejaram os monarquistas uma revolução em todos os Estados da República, de combinação com os respectivos chefes em outras localidades, com manifesto intuito de mudarem a forma de governo estabelecida na Constituição Federal”. A denúncia seguiu rigorosamente o Relatório do Chefe de Polícia, quer quanto à narrativa dos fatos, quer quanto à conclusão de que os denunciados deveriam ser incursos nas penas do artigo 107 do Código Penal. O Procurador requereu, ainda, que as testemunhas fossem ouvidas na Capital, pôr “... existir suspeição legal contra juizes de direito das Comarcas em que ocorreram os acontecimentos”, conforme noticiou o “Correio Paulistano” em sua edição de 16-9-1902. A denúncia foi publicada na íntegra. Editoriais da imprensa oposicionista investiram contra o Procurador da República, sob o pretexto de que ele colocava o poder judiciário a serviço da facção governista, com o objetivo de mover perseguições inconfessáveis.
Os nome dos chefes O Procurador da República apontou como chefes da conspiração: Em Ribeirãozinho: Thomaz Sebastião de Mendonça e Leonardo Botelho; Em Araraquara: Antonio Lourenço Corrêa e Carlos Baptista de Magalhães; Em São Carlos do Pinhal: Rafael Sampaio e José Inácio de Camargo; Em Campinas ou Rio Claro: João Aranha; Em Espírito Santo do Pinhal: Pedreira de Cerqueira, João Sertório e Barão de Mota Paes; Na Capital: Rafael Corrêa da Silva Sobrinho.
Pedidos de “Habeas Corpus” Iniciou-se , então, uma série de pedidos de “Habeas Corpus”, dirigidos ao Supremo Tribunal Federal, que negou a maioria dos pedidos.
DENÚNCIA APRESENTADA POR DR. BERNARDO DE CAMPOS, PROCURADOR DA REPÚBLICA Em sua edição de 17 de setembro de 1902 (Nº 8694), o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO” , na seção “Notas e Informações”, publicou a seguinte notícia: “O dr. Bernardo de Campos, procurador da República, apresentou denúncia, por estarem incursos no art. 107 do código penal – tentar diretamente e por fatos, mudar por meios violentos a constituição política da República, ou forma de governo estabelecida – contra os seguintes srs.: Thomaz Sebastião de Mendonça, Joaquim Matheus Corrêa, Pedro Corrêa, Leonardo Botelho, Gustavo Augusto de Moraes, Francisco Bento do Nascimento, Fausto Ismael Pereira e Souza, Galdino Honório de Sampaio, dr. Eulógio Alves de Mattos Pitombo, coronel João Ferreira de Castilhos, dr. Augusto Ferreira de Castilhos, Florentino Antonio Clemente, Vicente Corrêa, João de Toledo Lara, Miguel Núncio, Osório Pereira de Souza, dr. Manoel Augusto de Alvarenga, Antonio Ferreira Leite, João Vieira, José Bento Gonçalves, Manoel Peão, alferes Rabino José de Almeida, Lindolpho Barbosa, Álvaro Leite, Saturnino de Tal, Jacintho Soares Fagundes, dr. Tertuliano Gonzaga, Carlos Leôncio de Magalhães, Leão Pio de Freitas, Joaquim Corrêa de Freitas e Justino Corrêa de Freitas – de Ribeirãozinho e Matão. A peça de denúncia continua relacionando nomes de Araraquara, Boa Vista das Pedras (Itápolis), Espírito Santo do Pinhal, Mogi Mirim, Araras, São Carlos do Pinhal.
SENTENÇA PROLATADA PELO JUIZ FEDERAL DR. AQUINO E CASTRO Em sua edição de 8 de novembro de 1902, o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”, na coluna “Processo Político” noticiou o seguinte: “. . . O dr. Aquino e Castro, juiz federal deste Estado deu o seguinte despacho nos autos do processo político de Ribeirãozinho e Espírito Santo do Pinhal: “” Vistos e examinados estes autos – o doutor Procurador da República – baseado nas diligências policiais de fls. 231 usque 557 v – denunciou aos 104 cidadãos: . . . (relaciona os nomes dos implicados) . . . todos como incursos nas penas do artigo 107 do código penal, pelo crime aí definido de “tentar diretamente e por fatos mudar por meios violentos a Constituição da República, ou a forma de governo estabelecida”. No sumário foram inquiridas as testemunhas de fls... Interrogados os denunciados presentes, apresentaram as suas defesas de fls... e afinal o dr. Procurador da República, às fls. 861, em sua promoção, opinou pela pronúncia, naqueles mesmos artigos do Código Penal dos seguintes 32 indiciados: Thomaz Sebastião de Mendonça, dr. Augusto Ferreira de Castilho, coronel João Ferreira de Castilho, Joaquim Matheus Corrêa, dr. Eulógio Alves de Mattos Pitombo, Gustavo Augusto de Moraes, Leonardo Botelho, Florentino Antonio Clemente, Pedro Corrêa, Vicente Corrêa, João de Toledo Lara, Francisco Bento do Nascimento, Dr. Manoel Augusto de Alvarenga, Jacintho Soares Fagundes, Gabino Honório de Sampaio, Gabriel Novaes, dr. João Evangelista Pedreira de Cerqueira, Claudino Cintra, Armando Soares de Abreu Caiuby, Orlando Novaes, Joaquim Martins de Siqueira, Francisco Tenório, Francisco Tenório Filho, José Carlos Barbosa, Clemente Hermany, Antonio Macedo, Joaquim Flausino, David Alves de Araújo, Benevides de Sá, Evaristo Amâncio de Oliveira, Carlos Baptista de Magalhães e Antonio Lourenço Corrêa; e acrescenta o dr. Procurador da República que “muito maiores elementos de prova poderia oferecer se não houvesse este juízo encerrado o sumário, coarctando a justiça e dificultando o esclarecimento da verdade sobre muitos fatos constantes da denúncia... O que tudo bem ponderado: Seguem diversos “considerandos” e finaliza sua sentença: Considerando, finalmente que, se fatos delituosos e puníveis existem, escapam estes à Justiça Federal – que tem sua competência limitada – art. 83, 1ª parte, do decreto nº 3.084, de 5 de novembro de 1898 – e assim e pelo mais que dos autos consta e razões de direito – julgo improcedente a denúncia, lavrando-se contramandados de prisão, com as intimações necessárias. Custas ex-causa. Publique-se e intime-se. São Paulo, 7 de novembro de 1902 – Manoel Dias de Aquino e Castro”. PESSOAS QUE COLABORARAM NA PESQUISA SOBRE A MONARQUIA
O que nos dá força para prosseguir neste trabalho é que, quando imaginávamos que havíamos esgotado as fontes de consulta, heis que surgem novos fatos relacionados com o movimento restaurador, o que nos leva a extendê-lo. Impressionante o interesse demonstrado pôr pessoas que a gente nem conhece pessoalmente, mas que se dispõem a colaborar com o único objetivo de aprimoramento do trabalho. Durante o desenvolvimento das pesquisas, mantive contatos com inúmeras pessoas, que, de uma forma ou outra, me ajudaram lembrando detalhes, recomendando a leitura de artigos e livros publicados sobre o acontecimento histórico. Dentre estes contatos, conheci o Professor Hernâni Donato, historiador, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que colocou à minha disposição todo o acervo daquele Instituto; indicou-me dois historiadores que são membros do referido Instituto: dr. Paulo Henrique da Rocha Corrêa, que já registrei, no capítulo IV, a ajuda que me ofereceu, mais especificamente na narrativa do episódio do Mensageiro Barnabé da Costa Corrêa, que é o pai do dr. Paulo Henrique. Portanto, uma contribuição valiosíssima, pois são detalhes históricos que me foram fornecidos pôr um descendente direto de um dos envolvidos com o movimento restaurador. Outra pessoa que me ajudou foi o dr. Lincoln Echeberre Júnior, que é um estudioso da nossa história, professor de faculdades da disciplina de História do Brasil e que me enviou um livro escrito pela Professora da USP, Maria de Lourdes Mônaco Janotti, cujo título é “Os subversivos da República”, Editora Brasiliense - 1986. Um dos capítulos do livro retrata “A Revolução do Ribeirãozinho”, às páginas 220 a 243, do qual extraímos diversas passagens e que estão inseridas neste trabalho. A autora pesquisou jornais da época : “O Comércio de São Paulo”, “O Estado de São Paulo”, “Correio Paulistano”; pesquisou discursos que constam dos Anais da Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo, Relatório apresentado pelo Chefe de Polícia de São Paulo, José Cardoso de Almeida. No rodapé, às páginas 228, consta a citação de artigo assinado pôr nosso saudoso historiador José Romanelli, cujo título é: “Viveu Ribeirãozinho 24 horas de Monarquia”, publicado no jornal “Diário Popular”, São Paulo, aos 13-12-1949. Estendo os meus agradecimentos ao Professor Arnaldo Ruy Pastore, que muito me incentivou na elaboração deste trabalho.
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