NOSSA TAQUARITINGA
1902 – Movimento Monarquista - Monarquia por um dia
          Estávamos no início do século XX (1.900). Nas duas décadas anteriores ocorreram
grandes transformações no país: em 13-5-1888, a abolição da escravatura e em 15-11-1889,
a Proclamação da República, que punha fim ao regime imperial, passando para o sistema
republicano.
          Em 1898, Campos Salles assumiu a presidência da República. O presidente do
Estado de São Paulo (que corresponde ao atual goverrnador do Estado) era Bernardino de
Campos.
          O principal produto de exportação era o café. Com a queda dos preços, afetou
sobremaneira a classe dominante, os grandes proprietários rurais e por tabela, estavam
afetadas as outras atividades, tais como o comércio e a indústria incipiente.
          O café entra em crise e com ele, os fazendeiros, os Estados e o País.
          Os fazendeiros estavam insatisfeitos com a política econômica posta em prática
pelo Presidente da República, Campos Sales.
          Visando pressionar o Governo, se insurgem, aliando-se a um movimento que visava
restaurar a Monarquia.
          Aqui em nossa cidade, esse movimento recebeu o apoio de grande parte da
população, a ponto de, na madrugada de 23 de agosto, ser implantado o regime monárquico
por 24 horas.
          Passados os efeitos desse movimento político, a cidade voltou ao seu rítmo de
crescimento.

MONARQUIA POR UM DIA
          O objetivo deste trabalho é mostrar aos leitores de hoje um episódio histórico
ocorrido em nossa cidade, mas que teve repercussão nacional.
          O autor consultou livros, jornais da época e outros trabalhos que se encontram
relacionados ao final deste artigo, que vai se desenvolver durante algumas semanas, isto
é, por algumas edições deste semanário.
          O autor apreciaria receber novos detalhes, críticas, correções, sugestões sobre
este acontecimento histórico.

OS ACONTECIMENTOS
          No final do seculo 19, já era latente um sentimento nacional, visando substituir
o regime monárquico pelo republicano. Com a abolição da escravidão, em 1888, muitos
interesses foram contrariados, principalmente daqueles que eram donos de escravos; estes
estavam descontentes e se posicionavam contra o regime monárquico vigente, em virtude dos
prejuízos que tiveram de suportar.
          Os defensores de um Brasil republicano ganharam novos aliados, isto é, daqueles
que tiveram seus interesses contrariados pela libertação dos escravos. Isto tudo somado,
resultou, em 1889, na queda da Monarquia e a consequente instauração da República.
Acontece que o regime republicano feriu muitos interesses daqueles que estavam encastelados
na Monarquia e que não eram poucos. Com o advento da República, de um momento para
outro, se viram privados de muitos privilégios. Perderam o “status” de nobreza e tiveram
seus interesses políticos, comerciais e sociais abalados. Começaram, então, a se articular
em oposição ao novo regime republicano. Por outro lado, o novo regime, no início, não
estava correspondendo às expectativas daquilo tudo que os seus defensores haviam prometido.
As reformas econômicas, sociais e políticas não se realizavam na velocidade esperada,
causando uma sensação de frustração perante a população. Um grupo de monarquistas, alguns
movidos por interesses contrariados, outros eram monarquistas por ideal, somados aos
republicanos frustrados e inconformados, planejavam derrubar a República.

PLANEJAMENTO DO MOVIMENTO
          Os líderes planejaram minuciosamente a conspirata: com dinheiro em caixa,
estoque completo de armas, distribuiram atribuições, confabularam estratégias, expediram
mensagens cifradas que partiam do Conselho Deliberativo da Revolução, instalado em São
Paulo e marcaram a data para depor Campos Sales, que era o Presidente da República
(de 15.11.1898 a 15.11.1902} e Bernardino de Campos, que era Presidente (Governador) do
Estado de São Paulo (de julho de 1902 a abril de 1904); Campos Sales estava no final de
seu mandato, enquanto Bernardino de Campos estava no início do mandato. O Prefeito de
Ribeirãozinho era o Coronel da Guarda Nacional Gustavo Augusto de Moraes
(de 26.08.1901 a 17.02.1903). O movimento atingiu centenas de municípios, não só de São
Paulo, do Rio de Janeiro e outros Estados, embora o movimento com maior expressão ocorreu
no Estado de São Paulo.
 
A  DATA
          O movimento deveria eclodir entre 22 e 24 de agosto de 1902.
    
O  TRONO
          Restaurada a Monarquia, seria colocada no trono Dona Isabel, Condessa D’Eu.
Princesa Isabel (1846 a 1921) era filha de D.Pedro II e de dona Tereza Cristina.
Substituiu o pai em suas ausências. Promulgou a Lei do Ventre Livre, em 1871 e a lei
Áurea, em 13 de maio de 1888, acabando com a escravidão no Brasil. Era casada com o
Conde D’Eu.
 
OS LÍDERES DO MOVIMENTO
          O trabalho de aliciamento se desenvolveu não só na Capital Federal - Rio de
Janeiro, como na Capital de São Paulo, em outras Capitais, em várias cidades do interior
e em várias regiões do País e até nas Forças Armadas.
          No Rio de Janeiro, contavam com o apoio do Conselheiro Lafayete, do Visconde de
Ouro Preto, Andrade Nogueira e muitos outros nomes ilustres.
          Em São Paulo, à frente do movimento estava Rafael Corrêa da Silva Sobrinho,
coadjuvado por Francisco Penaforte Mendes de Almeida e alguns elementos da família Silva
Prado.
          Em Ribeirãozinho, os líderes do movimento eram Joaquim Mateus Corrêa, Leonardo
Botelho e João de Toledo Lara. Além dos três líderes citados, tomaram parte no movimento
o Coronel Augusto Ferreira de Castilho, Dr. Antonio Ferreira de Castilho, Dr. Eulógio
Alves de Matos Pitombo. (Ao final deste trabalho, o leitor encontrará uma relação mais
completa de outros nomes, não só de Ribeirãozinho, bem como de outras localidades, que
estiveram envolvidos nesse acontecimento.

EM RIBEIRÃOZINHO
          O movimento eclodiu na noite de 22 para 23 de agosto. Estavam reunidos na praça
da Matriz (atual Praça Centenário), aproximadamente dois mil homens armados. Em praça
pública a multidão ouviu a proclamação feita pelo Coronel Augusto Ferreira de Castilho,
de desobediência da cidade ao Governo Republicano. Entre os diversos oradores, merece
registro a participação do médico baiano, Dr. Eulógio Alves de Matos Pitombo, que fez
um discurso inflamado, enaltecendo o movimento. Dr. Matos Pitombo era médico em
Araraquara, mas clinicava, também, em Ribeirãozinho, e no dia da revolta encontrava-se
em nossa cidade.

PLANO DOS REVOLTOSOS
          Consta que os revoltosos, chefiados por Joaquim Mateus Corrêa, tinham em seus
planos “...tomarem café em Ribeirãozinho, almoçar em Araraquara, jantar em Campinas e
tomar chá no Palácio do Governo em São Paulo.”

OS PONTOS ESTRATÉGICOS   
          A população, com um misto de espanto e pânico, acompanhava o desenrolar dos
acontecimentos, sem saber exatamente o que estava acontecendo e qual o significado e as
implicações daquele movimento.
          Os rebeldes se apoderaram dos pontos estratégicos da vila: do edifício da Câmara
Municipal, onde funcionava não só a Câmara (Poder Legislativo), mas também a Chefia do
Governo Municipal, isto é, a Prefeitura (Poder Executivo), local onde seria empossada a
Junta Governativa Revolucionária. Naquela época, a população elegia os vereadores para
compor a Câmara Municipal; os vereadores escolhiam, entre os pares, um que exercia o cargo
de Prefeito. A Prefeitura funcionava no mesmo prédio da Câmara Municipal. A Prefeitura era
quase que um apêndice da Câmara. A Câmara tinha um poder quase que absoluto sobre a
Prefeitura; em outras palavras, a Câmara se sobrepunha à Prefeitura.
          Outro local visado pelos revolucionários era a Cadeia Pública, por representar
o poder de polícia e também o local destinado a aprisionar os insurretos, os adversários
e os funcionários que se recusassem a acatar as ordens revolucionárias.
          Outro local estratégico era a estação ferroviária, onde se encontravam o
telégrafo e o trem, que se constituíam nos dois meios rápidos e seguros de transporte
-- o trem -- e de comunicação -- o telégrafo --.

ACLAMAÇÃO E HASTEAMENTO DA BANDEIRA
          O movimento rebelde aclamou e nomeou uma junta provisória para governar a vila,
composta de três revolucionários:
-- Joaquim Mateus Corrêa,
-- Leonardo Botelho e
-- João de Toledo Lara.
          Joaquim Mateus Corrêa hasteou no mastro principal da Câmara, a bandeira
imperial, que lá tremulou por vinte e quatro horas.

MANCHETE DA IMPRENSA
          No dia 23 de agosto de 1902, os jornais de São Paulo anunciavam em grandes
manchetes: “PROCLAMADA A MONARQUIA EM RIBEIRÃOZINHO’.
          As emoções do público eram as mais variadas possíveis, pois alguns riam,
zombavam; outros sentenciavam ser muito séria a situação.

COMBOIO COM DESTINO A ARARAQUARA
          Os revolucionários preparavam um comboio, com aproximadamente quatrocentos
participantes, todos armados, que iriam se juntar com outros, vindos de outras cidades e
que seguiriam para a Capital.
          Mas, houve traições. A conspiração foi denunciada e o Governo republicano tomou
enérgicas medidas e preparou uma ofensiva, a fim de sufocar o movimento. Soldados vindos
de outras cidades e da Capital chegaram com forças repressivas.

O MENSAGEIRO
          Em vista do fracasso iminente, por causa das denúncias, o cabeça do movimento em
São Paulo, Dr. Rafael Corrêa da Silva Sobrinho, enviou um mensageiro, Barnabé da Costa
Corrêa (que era primo de Rafael) a Ribeirãozinho, com a missão de avisar seu irmão,
Joaquim Mateus Corrêa (um dos líderes do movimento nesta Vila), para suspender a
deflagração do movimento. Mas, a notícia chegou tarde; o movimento já estava em marcha.
          Sobre a pessoa do Mensageiro, cabe um registro especial: no início de nosso
trabalho, coloquei que apreciaria receber novos detalhes, críticas, correções, sugestões.
Tivemos a felicidade de ser apresentado ao Professor Dr. Paulo Henrique da Rocha Corrêa,
que nos forneceu um dado importante, e que mereceu de nossa parte uma correção no texto
original, em especial neste episódio do Mensageiro. Dr. Paulo Henrique é filho de Barnabé
da Costa Corrêa, que foi o Mensageiro. Em correspondência que me foi encaminhada por Dr.
Paulo Henrique, esclarece o fato de haver sido escolhido seu pai como Mensageiro para a
não deflagração da Revolução do Ribeirãozinho e que decorreu basicamente de três fatores: I)
 ser monarquista convicto; II) ser parente e pessoa de confiança dos líderes do movimento,
Dr, Rafael Corrêa da Silva Sobrinho e de Joaquim Mateus Corrêa; III) talvez a mais
importante das razões tenha sido de que Barnabé era comprador de café do Senador Procópio
de Carvalho, proprietário de uma Casa Comissária de Café, em Santos (SP), na região entre
Rio Claro, Corumbatai, Araraquara, incluindo-se aqui Ribeirãozinho e assim passaria muito
bem como comprador de café e não como mensageiro dos revolucionários. À época, Barnabé
morava em Santa Rita do Passa Quatro. Barnabé era natural de Araraquara, onde nasceu aos
11 de junhode 1869.
OS REVOLUCIONÁRIOS DERROTADOS
          Derrotados, os revolucionários safaram-se como puderam. Mas, nem todos os
revoltosos fugiram. Muitos foram presos e processados. Reunidos, inicialmente, em
Araraquara, foram depois remetidos a São Paulo e posteriormente ao Rio de Janeiro, onde
aguardaram o julgamento, numa fortaleza.
          Corria, na boca do povo, que seriam perseguidos pelo temido Tenente Galinha --
João Antonio de Oliveira.

PESQUISA NO MUSEU HISTÓRICO DE JABOTICABAL
          Através de pesquisa feita no Museu Histórico de Jaboticabal, localizamos no jornal
“ATALAIA”, edição de 31 de agosto de 1902 (portanto, oito dias após os acontecimentos, que
ocorreram entre 22 e 23 de agosto do referido ano de 1902), uma matéria que reproduz um
artigo publicado no jornal “O POPULAR”, este editado em Araraquara, sob o título “OS
SUCESSOS DE RIBEIRÃOZINHO -- GRAVES ACONTECIMENTOS CONSPIRATÓRIOS”, do qual transcrevemos
o seguinte: “No dia 23 do corrente (agosto de 1902), a população de Araraquara foi
surpreendida por uma notícia de que uma revolução havia sido deflagrada em Ribeirãozinho,
e que os revolucionários, de posse da Estrada de Ferro Araraquara, preparavam-se para
invadir Araraquara. Preparavam um comboio especial, com mais de quatrocentos homens
armados, para levar reforços à cidade de Araraquara. O pânico se espalhou por entre a
população, visto que os comentários eram os mais contraditórios e corriam por toda parte.
          Ao saber disso, o Major Pena, Delegado de Polícia, em Araraquara, foi
imediatamente conferenciar com o Juiz de Direito da Comarca, Dr. Flávio de Queiroz.
Em conjunto, essas autoridades enviaram telegrama para São Paulo, comunicando o fato.
No âmbito local, tomaram todas as providências para impedir a propalação da invasão daquela
cidade (Araraquara).

REQUISIÇÃO DE ARMAS
          E continua o artigo do citado jornal: “Entre as medidas tomadas, uma delas foi a
requisição de todas as armas existentes nas casas de comércio, que vendiam esses objetos.
          A requisição foi feita a pedido e sob a responsabilidade da Câmara Municipal.
Foram enviados emissários em pontos estratégicos, com o objetivo de vigiar e informar as
autoridades sobre a chegada de eventuais suspeitos e reunir elementos de resistência.”

A RESISTÊNCIA
          E mais: “...às três horas da tarde, do dia 23, já se encontravam reunidos mais de
trezentos homens, prontos e armados, que foram distribuídos para diversos pontos, sendo o
principal deles a Chácara Xavier, onde deveriam desembarcar os revoltosos. Estavam as
coisas nesse pé, quando inesperadamente desembarcaram pela composição férrea, conhecida
por “EXPRESSO”, vinte e quatro soldados, vindos de São Paulo e de São Carlos. Grande foi
o contentamento da população ao ver desembarcar esse contingente de Praças, tal era o
pânico que estava tomada. Logo em seguida, Dr. Flávio de Queiroz, Juiz de Direito e Major
Pena, Delegado de Polícia, receberam telegrama, informando que estava sendo enviado para
aquela cidade (Araraquara), forte contingente, chefiado pelo Delegado Auxiliar de São
Paulo, Dr. Vitor Airosa. Independente dessas providências, as autoridades locais
continuavam atentas. Via-se a todo instante passar grupos de paisanos que iam se aquartelar
nos prédios da Câmara e da Cadeia daquela cidade (Araraquara). Era grande o entusiasmo
pela defesa das instituições republicanas, ouvindo-se aqui e ali, a todo instante, vivas
à República e ao Governo.”

DEBANDADA DOS REVOLTOSOS
          E prossegue o jornal: “... às nove horas da noite, o Juiz de Direito foi
procurado pelo Chefe do Tráfego da Estrada de Ferro de Araraquara, comunicando a
debandada das forças revoltosas de Ribeirãozinho, atendendo ao aviso feito pelas
autoridades de Araraquara, dando ciência de que forte resistência havia sido armada.”
 

CHEGADA DAS FORÇAS CONTRA-REVOLUCIONÁRIAS
          E termina o relato desta forma: “Acalmados os ânimos e amainado o pânico, grande
massa popular se dirigiu à Estação da Paulista, em Araraquara, e aí ficou aguardando a
composição que trazia grande contingente de soldados. A plataforma estava repleta de
pessoas. Às dez horas da noite, no meio de aclamações, discursos e vivas de entusiasmo,
ouviu-se o apito da locomotiva. Desembarcaram o Delegado Auxiliar, Dr. Vitor Airosa, o
Escrivão, Dr. Teodósio de Carvalho e muitos oficiais da Força Pública. Todos foram
entusiasticamente recebidos, com aplausos e muitos vivas à República, ao Dr. Bernardino
de Campos, Governador do Estado e ao Dr.Campos Sales, Presidente da República”.

REAÇÃO DO GOVERNO
          A um político de Jaboticabal, então sede da Comarca de Ribeirãozinho, foi
enviado um telegrama com os seguintes dizeres: “---Não poupem dinheiro e ... nem balas”.
          Felizmente, não foi disparado um único tiro contra os revoltosos. Ribeirãozinho
foi tomada, deposto o seu Delegado e ocupada a Estação ferroviária e enviado um telegrama
a São Paulo, dando conta do seguinte: “---Ribeirãozinho tomada, dois mil homens em armas,
grande entusiasmo”. Achamos exagerado o número de homens armados, mas é o que consta
na mensagem.

RAMIFICAÇÕES DO MOVIMENTO
          O movimento tinha ramificações por diversas cidades, comprovadas através de
comunicações que a junta revolucionária dirigiu a Jaú, em nome de Álvaro Botelho; para
Campinas, em nome de José França; a Rio Claro, para João Aranha e em Santa Ernestina,
a um tal de Geraldo.

OUTRA CIDADE QUE ADERIU
          Telegramas anunciaram o levante de mais uma cidade: Espírito Santo do Pinhal. As
duas cidades ocupadas pelos revolucionários --Ribeirãozinho e Espírito Santo do Pinhal --
foram as únicas que tiveram, efetivamente, um movimento popular contra a República e em
favor do regime monárquico. Nas duas cidades, ocupadas pelos revolucionários, as diversas
manifestações que se sucederam, não deixaram dúvidas quanto ao fato de que se tratava
realmente de um movimento restaurador: discursos inflamados, proclamações, gritos de
“...Morra a República e ...Viva a Monarquia”. Embora os depoimentos de várias testemunhas
asseguravam igualmente o envolvimento de membros da dissidência do partido político PRP --
Partido Republicano Paulista --, que dava apoio ao governo republicano. Enérgicas medidas
foram postas em prática pelo Governo do Estado contra as duas cidades rebeldes.

MEDIDAS REPRESSIVAS
          O jornal “O Estado de São Paulo”, em 25 de agosto de 1902, noticiava que graves
distúrbios haviam ocorrido em Franca, Araras, Mogi Mirim, Araraquara, São Carlos do Pinhal,
Casa Branca, Ribeirãozinho, Espírito Santo do Pinhal e em outras localidades.
          O Chefe de Polícia de São Paulo, José Cardoso de Almeida, tomava medidas
repressivas: “no dia 23 de agosto, foi enviado a Araraquara e Ribeirãozinho um contingente
da Fôrça Pública, juntamente com o Segundo Delegado Auxiliar Vitor Ayrosa; no dia 24 de
agosto, foi enviado um batalhão, acompanhado do Primeiro Delegado Auxiliar José Roberto
Leite Penteado, com destino a Espírito Santo do Pinhal. Como resultado dessas providências,
os revoltosos foram dominados.

ESTAÇÃO DE ITAQUERÊ
          Consta que as forças revoltosas chegaram até a estacção de Itaquerê (atual Bueno
de Andrade), próxima da cidade de Araraquara, mas receosas, não chegaram a entrar. Fortes
contingentes foram deslocados para Matão e Ribeirãozinho.

BATALHA JURÍDICA
          Travou-se uma longa batalha jurídica. Os envolvidos foram presos; foram
instaurados inquéritos; de um lado, o Governo através do Procurador da República,
apresentou denúncia contra os implicados no movimento restaurador; de outro lado, ordens
de “habeas corpus” foram impetradas em favor dos envolvidos, perante o Supremo Tribunal
Federal. Muitos dos implicados ficaram presos e até foram transferidos para uma fortaleza,
até o julgamento.

OBJETOS APREENDIDOS EM RIBEIRÃOZINHO
          De acordo com notícia inserida no jornal “Correio Paulistano”, que circulava na
Capital-São Paulo, de dois de setembro de 1902 (dez dias após o movimento), consta que,
entre os objetos apreendidos, destacava-se uma moringa de barro, com as Armas da República
esculpida em seu bojo. Essa moringa tem uma história cômica: quando as forças monárquicas
se apoderaram do edifício da Câmara, a primeira coisa que fizeram foi colocar abaixo a
moringa que lá existia, ostentando ostensivamente as Armas da República, trocando-a por um
vaso estilo sebastianista, símbolo da Monarquia, que haviam premeditadamente adquirido para
o ato solene da substituição.
Outro objeto que foi apreendido era uma espada relampejante, que um dos chefes da
revolução, o Coronel da Guarda Nacional, Augusto Ferreira de Castilho portava na madrugada
do dia 23 de agosto e que a deixou ao fugir com os seus companheiros. Os dois objetos
acima mencionados são os mesmos relatados no ítem “NOTAS PITORESCAS”; a espada que o
Coronel Augusto Ferreira de Castilho, quando percorria as ruas da Vila, vestindo sua farda
imponente da Guarda Nacional, dizendo em tom de vitorioso: “Hoje é dia em que farei valer
a espada da Monarquia”. A moringa é aquela que, ao entrar no recinto da Câmara Municipal,
o Coronel, num rasgo de bravura, decepou-lhe o pescoço, sem romper a parte bojuda, ao
mesmo tempo que gritava: “---Alto lá !!! Em pleno regime monárquico, uma moringa
republicana??”.

DOLOROSO EPISÓDIO
          O fazendeiro Gabino Honório de Sampaio, acompanhado de seis capangas, no dia 22
de agosto de 1902, foram até a fazenda da Viúva Francisca Honória da Silva, sua tia e
começaram a guascar seus colonos, com o objetivo de amedrontá-los para junto do movimento
revolucionário. O colono Angelino Andreoti, amedrontado, pôs-se em fuga. O fazendeiro
Gabino ordenou aos seus capangas que fizessem fogo contra o colono. Um dos capangas, de
nome Artur de Tal, fêz um disparo, matando o colono. Os outros colonos, coagidos e
amedrontados seguiram os revolucionários. O assassinato do colono Andreoti foi o episódio
triste do movimento, em Ribeirãozinho. Portanto, a única vítima de morte foi a do colono
italiano Ângelo Andreotti, que foi fuzilado, ao fugir do recrutamento forçado que os
fazendeiros impunham aos seus colonos.
 
JUNTA REVOLUCIONÁRIA DE RIBEIRÃOZINHO
          A Junta Revolucionária de Ribeirãozinho estava assim constituída:
           --- Comandante - Joaquim Mateus Corrêa; Chefe do Movimento - João de Toledo
Lara; a Junta era complementada por Leonardo Botelho.
          Joaquim Mateus Corrêa era fazendeiro, aqui na região de Jaboticabal; foi um dos
fundadores da cidade de Guariba; era irmão de Rafael Corrêa da Silva Sobrinho; este último
era o lider do movimento na Capital-São Paulo; foi também um dos fundadores da cidade de
Guariba, aos 21 de setembro de 1895.
          Outras pessoas faziam parte do movimento monarquista de Ribeirãozinho:
          Dr.Antonio Ferreira de Castilho;
          Coronel da Guarda Nacional Augusto Ferreira de Castilho
          Dr. Eulógio Alves de Matos Pitombo, era médico
          Manoel Augusto de Alvarenga; este era cunhado de Joaquim Mateus Corrêa e de
Rafael Corrêa da Silva Sobrinho; Manoel Augusto tinha uma propriedade rural nas
proximidades de Ribeirãozinho, adquirida, provavelmente, por herança de seu sogro, Capitão
Francisco de Paula Corrêa e Silva;
          Major Pedro Paulo Corrêa; era vereador e exercia o cargo de Presidente da Câmara
Municipal, à época
          Antonio Ferreira Leite
          Amaro Leite
          Jacinto Soares Fagundes
          Laurentino de Tal e em geral todas as autoridades locais.
          Os Castilho acima citados -- Dr. Antonio e Coronel Augusto -- faziam parte da
família dos Capa Preta, que mantém descendentes, até hoje, em nossa cidade -- Ariosto
Castilho--, que reside à rua Visconde do Rio Branco. Consta às páginas oito do livro
“À época do movimento, o Prefeito era o Coronel da Guarda Nacional, Gustavo Augusto de
Moraes, Guarda demais vereadores eram Sebastião Moreira da Silva, José Domingues de
Camargo, Bernardino Inocêncio Amaral e Félix Onório de Sampaio. Não consta que estes
vereadores tivessem participado do movimento.

          Faremos um resumo do capítulo do livro “Os subversivos da República”, de autoria
de Maria de Lourdes Mônaco Janotti, que trata do movimento restaurador.

OS ANTECEDENTES DO MOVIMENTO
          Em 1900, um golpe militar fracassou; em 1901, uma cisão do Partido Republicano
Paulista dá origem ao Partido Dissidente de São Paulo, apoiado por Prudente de Moraes e
Júlio Mesquita (este político e um dos proprietários do jornal “O Estado de São Paulo”).
Ainda em 1901, embasado numa ação judicial, foi reaberto a 10 de agosto (de 1901), o Clube
Militar, que havia sido fechado pelo Governo. Na sua primeira sessão, participou a
Associação dos Empregados no Comércio, exemplo sintomático de que os militares buscavam
a aproximação e o apoio das classes populares.
          Após a abertura do Clube Militar, houve intensa atividade de alguns de seus
membros no sentido de envolver políticos influentes na campanha eleitoral contra a
candidatura oficial de Rodrigues Alves.
          Altas patentes do Exército e da Marinha, acompanhados de alguns políticos,
procuraram Prudente de Moraes (político influente e que havia sido o primeiro civil a
ocupar a Presidência da República) e o convidam a participar de um movimento contra Campos
Salles. Segundo consta, Prudente de Moraes não aderiu, pelo menos declaradamente.
          Por outro lado, os alunos da Escola Militar, em agosto de 1902, pretendiam
aprisionar o Presidente da República, Campos Salles.
          O ano de 1902 foi um período de intensas atividades políticas. Realizaram-se
eleições: Rodrigues Alves foi eleito Presidente da República, tendo recebido 592.039 votos.
À época, a população do Brasil era de aproximadamente 18 milhões de habitantes; conclui-se
que o Presidente foi eleito por apenas 3,3% dos votos da população. Rodrigues Alves assumiu
em 15-11-1902 e governou até 15-11-1906. O ano de 1902, foi também um ano de grandes
dificuldades econômicas; o café, principal produto de exportação, entra em crise e com ele
os fazendeiros, o Estado e o País, pois esse produto era o principal sustentáculo da jovem
República, como fôra também do Império.

ALIANÇA DE VÁRIAS TENDÊNCIAS
          Os dissidentes republicanos paulistas se unem aos monarquistas e aos militares e
diante do descontentamento das elites, tentam obter o apoio das classes populares e
comerciais.
          O movimento restaurador foi, na verdade, o resultado de uma aliança de várias
tendências que, desgostosas com a situação política e econômica, se unem numa frente
única, para tentar derrubar o Governo Federal de Campos Salles e o Governo Estadual de
Bernardino de Campos.

OS FAZENDEIROS DE CAFÉ
          Os fazendeiros estavam descontentes com a política do governo central e se
organizavam em Clubes da Lavoura, espalhados pôr diversas regiões produtoras de café e
lançavam seus protestos.
          Na região de Avaré,São Manoel, Botucatu cresciam as manifestações dos
fazendeiros, apresentando reclamações contra a Companhia de Estrada de Ferro União
Sorocabana e Ituana, cujo principal acionista era o Governo, que não atendia os fazendeiros
no transporte do principal produto da região, que era o café. As reclamações tinham pôr
base o tráfego irregular da Companhia Sorocabana.
          Os fazendeiros eram forçados a transportar o café em carroções, em lombos de
burros, em cargueiros, até a Estrada de Ferro Paulista, tendo que percorrer longas
distâncias. Cerca de 500 carroças, 100 carros de bois e muitos lotes de burros transitavam,
sem parar, dia e noite, transportando café da região da Sorocabana para a linha da
Paulista, com destino ao porto de Santos.

A MÃO ARMADA DO MOVIMENTO
          Embora civis e militares republicanos conspirassem a nível nacional, o movimento
foi predominantemente monarquista e paulista. Circunscreveu-se a algumas cidades do
interior do Estado de São Paulo e à localidade de Jacarezinho, no Paraná.
          Os principais implicados eram fazendeiros influentes, ligados aos chefes
monarquistas estaduais e membros das oposições municipais e dissidentes do Partido
Republicano Paulista (PRP).
          O coronelismo comandava a política dos municípios. Os poderosos fazendeiros
continuavam a ser monarquistas, mesmo após a instauração da República, em 1889. Esses
fazendeiros não perderam suas bases de influência e continuaram a participar da política
como chefes de facções locais. Em decorrência dessa situação é que se explica terem sido os
fazendeiros a mão armada do movimento de 1902.

EM SÃO PAULO - CAPITAL
          O movimento obedeceu a um plano político. Eram enviados agentes de São Paulo,
onde funcionava o Conselho Deliberativo do Movimento, para traçar planos de ação junto aos
revoltosos.
          Como articulador principal dos monarquistas estava Rafael Corrêa da Silva
Sobrinho, que era professor da Faculdade de Direito de São Paulo e ex-secretário do Partido
Monarquista de São Paulo, secundado em suas atividades pôr Francisco Penaforte Mendes de
Almeida, que também era professor da mesma Faculdade.

OS CONTATOS ENTRE OS REVOLTOSOS
          Rafael Corrêa da Silva Sobrinho manteve contatos com Francisco de Godoy Bueno,
morador em Araras (SP), recomendando que os monarquistas se preparassem para participar
da revolução, que se instauraria a 22 de agosto.
          Manteve contatos, também, com Joaquim Mateus Corrêa, seu irmão e com doutor
Alavarenga, seu cunhado, que eram fazendeiros na região de Ribeirãozinho. Contatou, também,
Lourenço Corrêa, seu tio, de Araraquara. Os nomes citados eram de pessoas, todas seus
parentes, que se tratavam de homens de fortuna e monarquistas.
          No mês de julho, que antecedeu o movimento, Rafael Corrêa da Silva Sobrinho
dirigiu-se a Espírito Santo do Pinhal, acompanhado de seu colega de Faculdade, Francisco
Penaforte Mendes de Almeida, onde manteve reuniões com os chefes monarquistas locais: Dr.
João Evangelista Pedreira de Cerqueira, Dr. João Sertório, Dr. Carolino Ferreira Garcia,
genro do Barão de Mota Paes e Armando Soares de Abreu Caiuby (este último, foi designado
delegado de polícia e chefe do governo da cidade, pôr ocasião da deflagração do movimento.

O SINAL PARA O INÍCIO DO MOVIMENTO
          Ficou acertado entre os conspiradores que as manifestações promovidas na Linha
Sorocabana deveriam ser o sinal para o início do movimento. E a partir dessas
manifestações, todos tomariam providências, arregimentando homens, estocando armas e
munições e armazenando alimentos.

ESTAÇÃO TELEGRÁFICA
          Em Araraquara, Carlos Baptista de Magalhães, que era presidente da Estrada de
Ferro Araraquara, instalou, quinze dias antes do início da revolução, uma estação
telegráfica reservada, em ponto isolado, para uso exclusivo do movimento.

Prisão e interrogatório
          Sufocado o movimento, os implicados foram levados para São Paulo e várias
personalidades, principalmente, monarquistas da Capital foram intimadas a depor.
Seguiram-se os interrogatórios dos implicados, sob o comando do Chefe de Polícia da Capital.

Inquérito policial
          O Relatório do Chefe de Polícia, José Cardoso de Almeida, apresentando a versão
oficial dos fatos, concluiu que a intenção dos revoltosos era a deposição do Governo do
Estado e da República, sendo convocada uma Constituinte, que resolveria sobre a formação
do governo, se desde logo não fosse restaurada a Monarquia. Consta , ainda, do relatório
que, no Rio de Janeiro, o movimento teria como chefes o Conselheiro Lafayette e o Senador
Lauro Sodré, que iriam fazer parte do Governo Provisório que seria aclamado; consta que
participaria também do movimento o Visconde de Ouro Preto.
          Nesse relatório do Chefe de Polícia de São Paulo, Dr. José Cardoso de Almeida,
encaminhado ao Secretário do Interior e Justiça, encontra-se transcrito o inquérito
policial elaborado pelos delegados Dr. José Roberto Leite Penteado e Victor Ayrosa, 1º e
2º delegados auxiliares. Dr. José Roberto foi encarregado da repressão aos revoltosos na
região de Espírito Santo do Pinhal, enquanto Dr. Victor Ayrosa ficou encarregado da região
de Araraquara e Ribeirãozinho.
          O relatório inicia a sua exposição informando que “. . .no dia 22 (de agosto de
1902) tinham sido expedidos da Vila de Ribeirãozinho telegramas avisando que aquela
povoação seria invadida por mais de 2.000 homens armados e municiados, que tendo intuitos
políticos apoderar-se-iam da Câmara e da Cadeia”.
          Os telegramas, na época, eram transmitidos via telégrafo, instalado na estação
da estrada de ferro. Acontece que esses telegramas ficaram retidos na estação da estrada
de ferro, em Araraquara, por determinação de Carlos Baptista de Magalhães, que fazia parte
do movimento monarquista e exercia o cargo de presidente da EFA. O objetivo da retenção
desses telegramas era impedir que chegassem ao seu destino que era o Chefe de Polícia, em
São Paulo.  Esses telegramas só chegaram a São Paulo no dia seguinte, isto é, 23 de agosto,
“. . . sendo imediatamente determinada a partida de uma autoridade (Delegado Victor Ayrosa)
para sindicar (apurar) dos fatos, acompanhada de força policial para manter a ordem”.
          Qual era o objetivo desse movimento ?  segundo consta do inquérito policial “...
 um plano revolucionário tinha sido aventado, tendo por fim, de momento, a deposição do
Governo do Estado e da República, sendo convocada uma Constituinte, que resolveria a
formação do Governo, se desde logo não fosse restaurada a monarquia”.  Portanto, os
revoltosos obedeciam a um plano geral de um movimento que devia se estender por todo o
Estado, visando a deposição do chefe da Nação e consequente aclamação de um governo
provisório que, caso não julgasse oportuno declarar, desde logo, restaurada a monarquia,
convocaria uma constituinte que, por sua vez, consultaria o País a respeito da forma do
governo.
          Para o bom êxito do movimento “os revolucionários contavam com fortes elementos
em Araraquara e Ribeirãozinho, homens de fortuna e convictos monarquistas prontos a agirem
para a restauração da monarquia”.
          Quem era o chefe (o cabeça) aqui em Ribeirãozinho foram encarregados de coordenar
Joaquim Matheus Corrêa e Dr. Alvarenga, parentes próximos do Dr. Raphael Corrêa da Silva,
que era considerado o chefe de todo o movimento no Estado de São Paulo.  Dr. Raphael era
professor da Faculdade de Direito de São Paulo.
          Em que momento se deflagaria o movimento ? durante os dias que antecederam o
movimento, boatos eram passados à população, insuflando-a sobre os atos do Governo da
República (Campos Sales era o presidente da República). Concomitantemente, na Estrada de
Ferro Sorocabana ocorriam manifestações por parte da população, principalmente, pelos
fazendeiros e comerciantes, insatisfeitos com os serviços que eram prestados por aquela
companhia. A crise de transporte na Sorocabana seria um dos motivos para o movimento e o
sinal para os revoltosos iniciarem a revolução era a deflagração de desordens que deveriam
ocorrer naquela região.
          Qual era a data ? foi designada a noite de 22 de agosto e madrugada de 23, para
se declarar o movimento em todo o Estado. ".“. . Assim combinado o plano, a Vila de
Ribeirãozinho, diretamente ligada `Cidade de Araraquara, pela linha da Comanhia Estrada de
Ferro de Araraquara, pela madrugada de 23 de agosto foi invadida por mais de duas mil
pessoas armadas e municiadas, que tomaram a Estação da Estrada de Ferro, impedindo a
partida dos trens. Os revoltosos, em seguida, depuseram o Delegado de Polícia e se reuniram
no Largo da Matriz. Ali ocorreram manifestações e discursos: entre os participantes do
movimento, Dr. Augusto de Castilho, depois de violento discurso, indicou que fosse
aclamado um Governo Provisório, composto dos revoltosos Joaquim Matheus Corrêa, Leonardo
Botelho e João de Toledo Lara, o que foi aceito, falando em seguida o doutor Eulógio Alves
de Mattos Pitombo, que nessa ocasião incitou o povo a prosseguir na sua luta. Este Governo
Provisório, assim que foi aclamado, reuniu-se no edifício da Câmara, onde foi empossado,
passando em seguida a exercer suas funções”.
          Delegado de Polícia e Comandante das forças revoltosas – Para Delegado de Polícia
foi nomeado Thomaz Sebastião de Mendonça e para Comandante das forças revoltosas o
coronel Gustavo Augusto de Moraes. Gustavo Augusto de Moraes teve papel proeminente no
movimento.
Dois dias antes, ele organizou as forças, fazendo recrutamento nas fazendas, aliciando
capangas, apreendendo armas, formando grupos armados.
          Participou, também, da organização das forças armadas o capitão Florentino
Antonio Clemente, “. . .que fardou-se, pondo nos braços os galões do posto que ocupava”.

          Tomada da vila – Tomada a vila de Ribeirãozinho e os revoltosos julgando que o
movimento fosse vitorioso em todo o Estado, enviaram telegramas de congratulações aos
“cabeças” do movimento, nas diversas cidades, inclusive para a redação dos jornais “Do
Commercio” e “O Estado de São Paulo” que eram simpatizantes do movimento.
          Telegramas retidos – As autoridades constituídas, ao tomarem conhecimento do
aliciamento de pessoas e armas por parte dos revoltosos visando a tomada da vila, enviaram
telegramas às autoridades localizadas na Capital. Entretanto, esses telegramas foram
interceptados e retidos, isto é, as mensagens não seguiram para a Capital. Esses telegramas
foram retidos por ordem de Carlos Baptista de Magalhães, um dos líderes do movimento
revoltoso e que exercia o cargo de presidente da Estrada de Ferro Araraquara. A retenção
dessas mensagens tinha por objetivo facilitar a tomada de Araraquara pelos revoltosos,
dificultando o envio de força policial pelas autoridades constituídas.
          Telegrama com a mensagem “não venha” – Após a tomada da Vila de Ribeirãozinho,
pelos revoltosos, o objetivo seguinte era a tomada da cidade de Araraquara. O ponto de
encontro das forças revoltosas era na estação de Itaqueri, onde deviam aguardar ordens.
          Antonio Lourenço Corrêa, um dos líderes do movimento em Araraquara, onde também
exercia o cargo de Diretor da Estrada de Ferro Araraquara, comunicou-se com Joaquim
Matheus Corrêa, este um dos líderes do movimento em Ribeirãozinho, solicitando a vinda
dos revoltosos, que deveriam embarcar à tarde do dia 23.  Joaquim Matheus Corrêa mandou
que fossem preparados dois comboios e duas máquinas, onde deviam seguir mais de
quinhentas pessoas.
          Quando os revoltosos de Ribeirãozinho já se achavam na estação a espera de
embarcar para seguirem para Araraquara, com uma banda de música, chegou um telegrama de
Antonio Lourenço Corrêa, dirigido a Joaquim Matheus Corrêa com as palavras “NÃO VENHA” e
logo em seguida com o intervalo de dez minutos, do mesmo Lourenço Corrêa uma outra
mensagem, dizendo que havia saído de São Paulo, uma força de quatrocentas praças, em trem
especial.
          Ordem de regressar – As forças revoltosas que estavam acampadas na Estação de
Itaqueri receberam ordens para regressar, visto que, com a chegada das forças legalistas,
não seria possível tomar Araraquara.
          O inquérito policial concluiu que os revoltosos, ao tomarem conhecimento que “...
uma autoridade policial acompanhada de força, seguia em direção à Vila de Ribeirãozinho, a
fim de restabelecer a ordem, os revoltosos abandonaram a cidade, deixando de prosseguir no
plano revolucionário, por circunstâncias independentes de sua vontade”.
          Enquadramento jurídico dos implicados – O inquérito policial continua: “... Pelos
inquéritos feitos está provado que um plano revolucionário estava preparado com repercussão
em todo o Estado e fora e que os revoltosos tentaram diretamente, por meios violentos mudar
a forma de Governo estabelecida pela Constituição da República, incidindo assim na sanção
do artigo 107 do Código Penal: “Tentar diretamente e por fatos mudar por meios violentos a
Constituição política da República ou forma de Governo estabelecida”.   
          Os indiciados – Do inquérito policial constou como indiciados:
          Dr. Raphael Corrêa da Silva que “encontrou no Pinhal o plano de conspiração,
preparou elementos em Araras e em Araraquara, por intermédio de seus parentes, principais
figuras no movimento, bem como em Ribeirãozinho, por parte dos revoltosos responsáveis
pelos fatos apurados, pelo que representamos ao Dr. Juiz Federal, sobre a conveniência de
ser decretada a sua prisão preventiva”.
          Carlos Baptista de Magalhães – “. . .convém ponderar, a cerca do papel saliente
que tomou no movimento, como Presidente da Companhia de Estrada de Ferro de Araraquara,
estabeleceu quinze dias antes da revolução, uma estação telegráfica reservada, em ponto
isolado, a quasi um kilômetro da cidade, para uso exclusivo da revolução ou de receber
notícias repetidas do que se passava em Ribeirãozinho e em outros pontos da linha e à
proporção que as recebia, ia pressuroso comunicá-las ao Dr. Rodrigo Lobato”
          Antonio Lourenço Corrêa – Diretor Secretário da mesma Companhia
          Joaquim Matheus Corrêa, irmão do Dr. Raphael Corrêa
          Leonardo Botelho, João Toledo Lara, Dr. Augusto de Castilho, coronel João
Ferreira de Castilho, Felix da Silva Leite, Dr. Eulógio da Silva Mattos Pitombo, Thomaz
Sebastião de Mendonça, Fausto Ismael Pereira e Souza, Gustavo Augusto de Moraes, Gabino
Horácio (Honório) de Sampaio (também responsável pelo assassinato do colono Ângelo
Andreotti que fugia para não ser recrutado pelas forças dos revoltosos), Jacintho Soares
Fagundes, Francisco Bento do Nascimento, Dr. Manoel Augusto de Alvarenga, cunhado do Dr.
Raphael Corrêa, Justino Corrêa de Freitas, Carlos Leôncio de Magalhães (filho de Carlos
Baptista de Magalhães), Leão Pio de Freitas, capitão Florentino Antonio Leite, filho de
Felix da Silva Leite, Pedro Corrêa, Vicente Corrêa, Osório Pereira de Souza, de
Ribeirãozinho e Araraquara.
 
Confrontação entre órgãos de imprensa
          Os interrogatórios foram acompanhados pela imprensa e serviram como pretexto
para a confrontação entre grupos políticos: pelo lado do governo, o jornal “Correio
Paulistano”, que era órgão ligado ao partido político PRP (Partido Republicano Paulista),
que apoiava o governador Bernardino de Campos. Outro jornal que apoiava o governo era
“A Platéia”. Estes dois jornais se opunham a “O Comércio de São Paulo”, a “O Estado de
São Paulo” e a “O Tempo”, este último, órgão da dissidência. Na época, houve uma “guerra”
entre esses dois blocos de órgãos de imprensa: um apoiava os revoltosos e o outro, o
governo. Travou-se, então, uma polêmica que ficou conhecida como a “revolução dos
telegramas”: de um lado, “O Estado de São Paulo”, que apoiava a dissidência paulista e
se aliava aos restauradores monarquistas, estampava telegramas provenientes do interior,
dando conta do aumento da área conflagrada; já o “Correio Paulistano”, que era um órgão
do partido político PRP, cuidava de desmenti-los. Esses dois jornais travaram um confronto:
o jornal “O Estado de São Paulo”, que era dirigido pôr Júlio de Mesquita, em 1896, combateu
os monarquistas, pois defendia a causa republicana. Já, em 1902, o jornal e seu diretor
passaram a atacar os republicanos, isto é, passaram a fazer parte da dissidência paulista,
aliando-se aos monarquistas. Já, o jornal “Correio Paulistano”, órgão do Partido
Republicano Paulista, que era governista, explorou essa dualidade de posição do seu
opositor: primeiro, porque havia combatido a Monarquia, defendendo a República; agora
(1902), aliou-se aos monarquistas e passou a atacar os republicanos.

A Denúncia
          Em 15 de setembro, o Procurador da República, Bernardo de Campos, apresentou ao
Juiz Federal denúncia contra 27 pessoas de Ribeirãozinho e Matão, 40 de Espírito Santo do
Pinhal, 11 de Araraquara, 8 de Araras, 4 de Mogi-Mirim, 2 de Boa Vista das Pedras (atual
Itápolis), 2 de São Carlos do Pinhal, 1 de Rio Claro e 2 da Capital.
          No relato do Procurador manifestava-se a nítida convicção de que o movimento
tinha sido arquitetado pelos restauradores: “...Nessas reuniões, planejaram os monarquistas
uma revolução em todos os Estados da República, de combinação com os respectivos chefes
em outras localidades, com manifesto intuito de mudarem a forma de governo estabelecida
na Constituição Federal”.
          A denúncia seguiu rigorosamente o Relatório do Chefe de Polícia, quer quanto
à narrativa dos fatos, quer quanto à conclusão de que os denunciados deveriam ser incursos
nas penas do artigo 107 do Código Penal. O Procurador requereu, ainda, que as testemunhas
fossem ouvidas na Capital, pôr “... existir suspeição legal contra juizes de direito das
Comarcas em que ocorreram os acontecimentos”, conforme noticiou o “Correio Paulistano” em
sua edição de 16-9-1902. A denúncia foi publicada na íntegra. Editoriais da imprensa
oposicionista investiram contra o Procurador da República, sob o pretexto de que ele
colocava o poder judiciário a serviço da facção governista, com o objetivo de mover
perseguições inconfessáveis.

Os nome dos chefes
          O Procurador da República apontou como chefes da conspiração:
          Em Ribeirãozinho: Thomaz Sebastião de Mendonça e Leonardo Botelho;
          Em Araraquara: Antonio Lourenço Corrêa e Carlos Baptista de Magalhães;
          Em São Carlos do Pinhal: Rafael Sampaio e José Inácio de Camargo;
          Em Campinas ou Rio Claro: João Aranha;
          Em Espírito Santo do Pinhal: Pedreira de Cerqueira, João Sertório e Barão de
Mota Paes;
          Na Capital: Rafael Corrêa da Silva Sobrinho.

Pedidos de “Habeas Corpus”
          Iniciou-se , então, uma série de pedidos de “Habeas Corpus”, dirigidos ao
Supremo Tribunal Federal, que negou a maioria dos pedidos.

DENÚNCIA APRESENTADA POR DR. BERNARDO DE CAMPOS, PROCURADOR DA REPÚBLICA
          Em sua edição de 17 de setembro de 1902 (Nº 8694), o jornal “O ESTADO DE SÃO
PAULO” , na seção “Notas e Informações”, publicou a seguinte notícia:
          “O dr. Bernardo de Campos, procurador da República, apresentou denúncia, por
estarem incursos no art. 107 do código penal – tentar diretamente e por fatos, mudar por
meios violentos a constituição política da República, ou forma de governo estabelecida –
contra os seguintes srs.: Thomaz Sebastião de Mendonça, Joaquim Matheus Corrêa, Pedro
Corrêa, Leonardo Botelho, Gustavo Augusto de Moraes, Francisco Bento do Nascimento,
Fausto Ismael Pereira e Souza, Galdino Honório de Sampaio, dr. Eulógio Alves de Mattos
Pitombo, coronel João Ferreira de Castilhos, dr. Augusto Ferreira de Castilhos,
Florentino Antonio Clemente, Vicente Corrêa, João de Toledo Lara, Miguel Núncio, Osório
Pereira de Souza, dr. Manoel Augusto de Alvarenga, Antonio Ferreira Leite, João Vieira,
José Bento Gonçalves, Manoel Peão, alferes Rabino José de Almeida, Lindolpho Barbosa,
Álvaro Leite, Saturnino de Tal, Jacintho Soares Fagundes, dr. Tertuliano Gonzaga, Carlos
Leôncio de Magalhães, Leão Pio de Freitas, Joaquim Corrêa de Freitas e Justino Corrêa de
Freitas – de Ribeirãozinho e Matão.
          A peça de denúncia continua relacionando nomes de Araraquara, Boa Vista das
Pedras (Itápolis), Espírito Santo do Pinhal, Mogi Mirim, Araras, São Carlos do Pinhal.

SENTENÇA PROLATADA PELO JUIZ FEDERAL DR. AQUINO E CASTRO
          Em sua edição de 8 de novembro de 1902, o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”, na
coluna “Processo Político” noticiou o seguinte:
          “. . . O dr. Aquino e Castro, juiz federal deste Estado deu o seguinte despacho
nos autos do processo político de Ribeirãozinho e Espírito Santo do Pinhal: “” Vistos e
examinados estes autos – o doutor Procurador da República – baseado nas diligências
policiais de fls. 231 usque 557 v – denunciou aos 104 cidadãos: . . . (relaciona os nomes
dos implicados) . . . todos como incursos nas penas do artigo 107 do código penal, pelo
crime aí definido de “tentar diretamente e por fatos mudar por meios violentos a
Constituição da República, ou a forma de governo estabelecida”.
          No sumário foram inquiridas as testemunhas de fls...
          Interrogados os denunciados presentes, apresentaram as suas defesas de fls...
e afinal o dr. Procurador da República, às fls. 861, em sua promoção, opinou pela
pronúncia, naqueles mesmos artigos do Código Penal dos seguintes 32 indiciados: Thomaz
Sebastião de Mendonça, dr. Augusto Ferreira de Castilho, coronel João Ferreira de
Castilho, Joaquim Matheus Corrêa, dr. Eulógio Alves de Mattos Pitombo, Gustavo Augusto
de Moraes, Leonardo Botelho, Florentino Antonio Clemente, Pedro Corrêa, Vicente Corrêa,
João de Toledo Lara, Francisco Bento do Nascimento, Dr. Manoel Augusto de Alvarenga,
Jacintho Soares Fagundes, Gabino Honório de Sampaio, Gabriel Novaes, dr. João Evangelista
Pedreira de Cerqueira, Claudino Cintra, Armando Soares de Abreu Caiuby, Orlando Novaes,
Joaquim Martins de Siqueira, Francisco Tenório, Francisco Tenório Filho, José Carlos
Barbosa, Clemente Hermany, Antonio Macedo, Joaquim Flausino, David Alves de Araújo,
Benevides de Sá, Evaristo Amâncio de Oliveira, Carlos Baptista de Magalhães e Antonio
Lourenço Corrêa; e acrescenta o dr. Procurador da República que “muito maiores elementos
de prova poderia oferecer se não houvesse este juízo encerrado o sumário, coarctando a
justiça e dificultando o esclarecimento da verdade sobre muitos fatos constantes da
denúncia...
          O que tudo bem ponderado:
          Seguem diversos “considerandos” e finaliza sua sentença:
          Considerando, finalmente que, se fatos delituosos e puníveis existem, escapam
estes à Justiça Federal – que tem sua competência limitada – art. 83, 1ª parte, do decreto
nº 3.084, de 5 de novembro de 1898 – e assim e pelo mais que dos autos consta e razões de
direito – julgo improcedente a denúncia, lavrando-se contramandados de prisão, com as
intimações necessárias. Custas ex-causa. Publique-se e intime-se. São Paulo, 7 de novembro
de 1902 – Manoel Dias de Aquino e Castro”.
   
PESSOAS QUE COLABORARAM NA PESQUISA SOBRE A MONARQUIA

          O que nos dá força para prosseguir neste trabalho é que, quando imaginávamos
que havíamos esgotado as fontes de consulta, heis que surgem novos fatos relacionados
com o movimento restaurador, o que nos leva a extendê-lo.
          Impressionante o interesse demonstrado pôr pessoas que a gente nem conhece
pessoalmente, mas que se dispõem a colaborar com o único objetivo de aprimoramento do
trabalho. Durante o desenvolvimento das pesquisas, mantive contatos com inúmeras pessoas,
que, de uma forma ou outra, me ajudaram lembrando detalhes, recomendando a leitura de
artigos e livros publicados sobre o acontecimento histórico. Dentre estes contatos,
conheci o Professor Hernâni Donato, historiador, Presidente do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo, que colocou à minha disposição todo o acervo daquele Instituto;
indicou-me dois historiadores que são membros do referido Instituto: dr. Paulo Henrique
da Rocha Corrêa, que já registrei, no capítulo IV, a ajuda que me ofereceu, mais
especificamente na narrativa do episódio do Mensageiro Barnabé da Costa Corrêa, que é o
pai do dr. Paulo Henrique. Portanto, uma contribuição valiosíssima, pois são detalhes
históricos que me foram fornecidos pôr um descendente direto de um dos envolvidos com o
movimento restaurador.
          Outra pessoa que me ajudou foi o dr. Lincoln Echeberre Júnior, que é um
estudioso da nossa história, professor de faculdades da disciplina de História do Brasil
e que me enviou um livro escrito pela Professora da USP, Maria de Lourdes Mônaco Janotti,
cujo título é “Os subversivos da República”, Editora Brasiliense - 1986. Um dos capítulos
do livro retrata “A Revolução do Ribeirãozinho”, às páginas 220 a 243, do qual extraímos
diversas passagens e que estão inseridas neste trabalho. A autora pesquisou jornais da
época : “O Comércio de São Paulo”, “O Estado de São Paulo”, “Correio Paulistano”; pesquisou
discursos que constam dos Anais da Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo,
Relatório apresentado pelo Chefe de Polícia de São Paulo, José Cardoso de Almeida.
          No rodapé, às páginas 228, consta a citação de artigo assinado pôr nosso saudoso
historiador José Romanelli, cujo título é: “Viveu Ribeirãozinho 24 horas de Monarquia”,
publicado no jornal “Diário Popular”, São Paulo, aos 13-12-1949.
          Estendo os meus agradecimentos ao Professor Arnaldo Ruy Pastore, que muito
me incentivou na elaboração deste trabalho.